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Entrevista com Matheus Pontes

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Durante este mês de Halloween, nada melhor que conhecer um pouco mais sobre aqueles que nos trazem histórias arrepiantes. Na entrevista de hoje, convidamos Matheus Pontes, autor de Canções de Bruxas e Rapsódias de Fadas Negras. O escritor nasceu em São José dos Campos e é funcionário público, participante de podcasts, leitor e adorador de cães.

Matheus cultiva o hábito da leitura com predileção pela fantasia, mas sempre procura tempo para ler outros gêneros. Canções de Bruxas e Rapsódias de Fadas Negras é seu livro de estreia e traz a reunião de contos sombrios que atende os entusiastas do gênero e leitores de terror.

Confira a entrevista abaixo:

1. De onde veio sua inspiração para escrever contos sombrios?

Eu realizava em uma rede social de games, o Alvanista, um trabalho chamado Know Your Demon de catalogar criaturas mitológicas e lendárias de uma série de jogos. Fiz esse trabalho semanalmente por uns dois anos e após umas cem criaturas de mitologias que você nem sabia que existia, você acaba conhecendo uma parcela de seres interessantes e diferentes pra alimentar o seu imaginario.

2. Como escritor de terror, quais são seus desafios pessoais para encontrar os temas de suas histórias?

Evitar cair na mesmice, eu acho, embora a história mais simplória e repetida possa sempre melhorar com uma boa execução, sendo bem contada. Um bom conforto que tenho mora nas histórias de contextos urbanos como os próprios livros de Stephen King ou Neil Gaiman. Longe de ser meu cenário predileto, mas acho que histórias fantásticas, sejam de terror, horror ou outro gênero em ambiente urbano tendem a ser mais variadas e criativas com a história que querem contar.

3. O que te atrai ao terror como gênero literário?

É um gênero que acho elegante e até versátil, ele pode se desdobrar para terrores carnais e violentos, pode envolver terrores psicológicos, pode envolver suspense, pode ser uma história de monstros ou fantasmas ou ainda pode ser tudo isso e ainda ser uma história de analogias como algumas boas fantasias são. Pessoalmente eu gosto muito da estética promovida por histórias de terror, que são como histórias de fantasia, mas com um foco maior no perigo que as ameaças representam e em como os protagonistas tentam sobreviver e lidar fisicamente e psicologicamente com tais ameaças.

4. Você considera o terror um gênero difícil de escrever comparado aos outros? Se sim, por que?

Existe a cobrança que muitos fazem de sentirem medo ou se sentirem assustados com o que lêem e isso eu acho particularmente tão difícil quanto escrever algo para fazer as pessoas rirem. Eu tento não ter essa cobrança quando leio terror e horror, adoro o gênero, mas para consumi-lo como uma boa história, uma boa ficção, já que devo conseguir contar nos dedos de duas mãos quantas vezes tive medo ou algum tipo de sentimento similar com a leitura. Pegue Lovecraft, por exemplo, é um autor que eu adoro com o qual fiz um exercício de ler o máximo de coisas que ele escreveu de sua infância até sua morte, mas, em mais de 90 leituras de um dos ícones do gênero tive medo em apenas um dos contos e uma aflição com outro.

5. Quais foram os desafios de escrever Canções de Rruxas e Rapsódias de Radas negras, um livro composto inteiramente de contos?

Primeiro temos a cobrança do gênero em si, assustar o leitor e isso não é fácil (inclusive comento a respeito disso na introdução do livro), deixo aqui inclusive minha dica para quem quer escrever um conto de terror a de tentar escrever, sobretudo, uma boa ficção para conquistar o leitor se não for pelo medo pelo entretenimento.

O segundo desafio está no próprio formato, um conto é algo mais descompromissado e contido do que uma novela ou romance, mas por ser um livro de contos, exige a necessidade de se criar várias histórias, cenários e personagens diferentes e o cuidado básico de não se contar o mesmo tipo de história de forma repetida com outra roupagem.

Por fim das dificuldades próprias do livro foi o estudo de cenário e época, como diz a proposta do livro, cada conto se passa em uma região e época diferente da nossa e entre si, foram necessários estudos geográficos e culturais massivos e estou vulnerável a muitas discrepâncias com respeito roupas, tecnologias, costumes e geografias mesmo com toda a pesquisa que realizei. Um dos contos, por exemplo, Caçado, que é o maior conto do livro foi reescrito três vezes, na primeira por conta de eu confundir o cenário político das duas Irlandas (nem todo mundo sabe que existem duas Irlandas) em outra durante a revisão houve toda uma dúvida da revisora a respeito do vilarejo de Holywood que o personagem visita já que existem duas delas no país, Holywood e Hollywoood (nem todo mundo sabe que existem mais de duas Hollywoods).

6. Hoje em dia, a maioria das lendas mais famosas foram adaptadas para versões menos sombrias e pertubantes. Por que você acha que isso acontece? Você acha importante ter conhecimento das versões originais mais macabras destes contos?

Boa parte disso veio da Disney nos anos 40 com as suas adaptações de contos famosos dos Irmãos Grimm e como o próprio termo denuncia “adaptação” ele visa adaptar e não reproduzir integralmente aquele conteúdo e isso permite adaptar para um novo público (bem a Disney queria dinheiro, o público queria entretenimento, ambas as partes conseguiram não é?). Para todo bom escritor, principalmente do gênero eu acho importante sim ter conhecimento disso ainda mais como estudo das raízes formadoras do gênero, já que apesar da categoria ‘contos de fadas’ alguns destes contos eram apresentados em encontros de alta classe da aristocracia europeia pelo mero entretenimento, contos de adultos, para adultos e com um tom adulto.

7. Na sua opinião, contos macabros possuem um potencial maior para exploração de simbolismo?

Possuem potencial assim como o do gênero fantástico em geral, mas a vantagem dos contos de natureza macabra é justamente os simbolismos ou alegorias se correlacionarem com o medo, um sentimento tremendamente poderoso e que pode ter várias raízes, como medo do escuro, de ser abandonado, de cachorros ou de um abuso sexual, podem representar outros sentimentos desagradáveis como os Dementadores de Harry Potter e a depressão. Não imagino melhor exemplo disso do que algo fora dos livros, as criaturas de Silent Hill e seus diversos simbolismos, principalmente os de ordem sexual do segundo jogo.

8. Lendas tenebrosas são muito cativantes ao público, pois possuem um impacto que pode durar por gerações. Por que você acha que nos apegamos tando a estes contos assustadores?

Talvez seja o apelo ao imaginário coletivo, mas dá pra traçar alguns motivadores básicos, o primeiro dele é a natureza instrutora de algumas lendas ou folclores para evitar fazer algo proibido ou perigoso similar as fábulas, como no zoroastrismo a entidade mosca Druj Nasu que os adeptos acreditavam invadir cadáveres sob a forma de uma mosca para o infectar o cadáver e possivelmente infectar os desavisados que entrasse em contato com o morto caso o cadáver não passasse por um determinado ritual (uma crença básica que ajudava a pessoas terem os devidos cuidados com um cadáver para não pegarem doenças ), o segundo deve ser o entretenimento que o medo controlado nos proporciona. O medo é um sentimento deveras desagradável por que buscamos com tanto afinco senti-lo através de jogos, filmes, livros e afins? Porque sob controle ele nos fornece uma adrenalina e entretenimento controlados, sem os perigos da situação real, eu acho.

9. Você já escreveu sobre algum medo pessoal? Se sim, acha que a escrita o ajudou a entender melhor a origem deste medo?

Não cheguei a escrever sobre os medos mais pessoais ainda, mas acredito sim que possa ajudar a lidar com isso e não apenas o medo, mas também a tristeza. O trabalho de escrita pode ajudar você a confrontar, processar ou racionalizar o sentimento. Passei por um período de pesadelos agressivos quando um cachorro meu morreu a alguns anos, iniciei uma história apenas para mim que tinha toda uma analogia com esses pesadelos e aos poucos isso foi me ajudando a controlar melhor esses sentimentos e ter paz.

10. Você tem alguma dica aos leitores que estão procurando leituras para este Halloween?

Aproveitando a menção de Lovecraft eu deixo aqui sugestões de leitura ligadas ao mesmo, dois de seus contos, O Depoimento de Randolph Carter e Dagon são dois contos excelentes para se conhecer o autor. Dagon é o preferido da galera, o do Randolph é o primeiro conto que li e que esse alter-ego de Lovecraft marca presença.

Agora dentre meus favoritos caso você queira aproveitar a passagem pra ver o que há de melhor do autor, recomendo Nas Montanhas da Loucura, considerado a magnum opus do cara que Guilermo Del Toro tenta há anos fazer filme, O Horror de Dunwich que é meu conto favorito e que me provocou medo genuíno e A Sombra de Innsmouth, o mais próximo de um conto aventuresco do autor. Muitos destes estão no Brasil em coletâneas da Darkside Books e da Martim Claret. Pra quem quer algo mais contemporâneo de mais fácil leitura e compreensão cito Stephen King e seu livro Salen’s Lot ou A Hora do Vampiro (minha obra vampiresca favorita até então) ou a coletânea Ao Cair da Noite que tem um dos contos mais interessantes dele em minha opinião, é N. Aos que optarem pelo meu livro Canções de Bruxas e Rapsódias de Fadas Negras me resta no mínimo um obrigado e um convite a bater um papo comigo na Flisp 2020.

Você pode encontrar Matheus Pontes nas redes sociais abaixo:

Facebook: @matheuspontesSkoob: @matheuspontesInstagram: @mpontesrouen


Título: Canções de Bruxas e Rapsódias de Fadas Negras (Cantigas da Escuridão)
Autor: Matheus Pontes
Editora: Editora Coerência
Gênero: Terror, Contos
Número de páginas: 222

Sinopse: Em épocas e lugares distintos, pessoas mundanas lidam com seres aquém da compreensão humana. Inspirando mitos, contos, lendas e folclores de caráter nefasto, esses seres, embora por vezes hajam de forma meramente instintiva, como animais famintos, em maioria assumem uma natureza malévola e implacável, vendo o homem como nada além de um alvo para descarregar sua fúria.

Prepare-se para se surpreender com relatos de diferentes perspectivas, nos quais humano e criatura, ser vivo e o sobrenatural colidem. Entre canções e poemas declamados por bruxas e servas da noite, conhecimentos do oculto serão perpetuados.

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