MONSTROS NA CULTURA POP: Drácula e o Cavalheiro Vitoriano
27 jul

MONSTROS NA CULTURA POP: Drácula e o Cavalheiro Vitoriano

Coluna, Notícias

Fernando Vugman

Há dezenas de milhares de anos, nossos ancestrais deixaram de agir apenas por instinto, como os animais, e tomaram consciência do mundo e da própria existência. Foi quando surgiu a pergunta: quem sou? A impossibilidade de encontrar uma resposta definitiva gerou uma ansiedade que nos acompanha até hoje. Essa crise existencial tem nos levado a sempre tentar definir como “humano” tudo o que em nós é aceitável e compreensível; aquilo que nos repugna e rejeitamos pertence ao monstruoso. Assim nasceu o Mito do Monstro. E cada cultura, em cada época e lugar, criou seus próprios monstros e suas histórias. Como metáforas desse Mito, cada monstro inventado tem muito a dizer sobre a comunidade que o imaginou.

Drácula (1897), de Bram Stoker, tem muito a dizer sobre a Era Vitoriana, particularmente sobre o que mais assombrava o cavalheiro britânico nos últimos anos daquele período. Dois temas principais permeiam sua narrativa: os movimentos migratórios como ameaça, especialmente da Europa do Leste, trazendo outras culturas e religiões, e os avanços da mulher vitoriana sobre o poder masculino, principalmente em relação ao mercado de trabalho, ao acesso à educação e, claro, sobre o controle da própria sexualidade.

A principal, mas não única, pista sobre o medo da ameaça cultural está na história do próprio Conde, originário da mística e católica Transilvânia. A Igreja Anglicana era a igreja oficial da Inglaterra, e os anglicanos viam o catolicismo como uma vertente primitiva e obscura do cristianismo. Por isso, as armas de Van Helsing e seus companheiros contra o vampiro são símbolos associados aos católicos, como o crucifixo e a hóstia sagrada, misturados a crendices populares, como o poder do alho e das orações para espantar o mal. Podemos encontrar, ainda, outras referências mais sutis à “ameaça oriental” aos valores e princípios vitorianos, como a distribuição geográfica dos heróis em Londres, que habitam e circulam pelas partes mais ocidentais da cidade, enquanto Drácula distribui seus caixões pelas regiões mais ao leste.

Naquele momento, os abalos que atingiam a sociedade vitoriana vinham do choque entre a racionalidade científica e o folclore e a superstição; entre velha Europa e uma nova Europa, representada por uma Londres moderna e industrial; e pela disseminação da corrupção e da depravação que ameaçavam as noções tradicionais de decoro e do senso do dever como referências para o homem civilizado. Daí a presença tantos dispositivos e recursos tecnológicos novos para a época: os trens, o telégrafo, o fonógrafo, a máquina de escrever portátil e o papel carbono, e até de câmeras Kodak e lanternas elétricas. No asilo do Dr. Seward, a loucura não é mais tratada como manifestação espiritual ou sobrenatural, mas como objeto da ciência médica, enquanto transfusões de sangue são empregadas na tentativa de salvar Lucy.

Apesar de úteis na batalha contra o vampirismo, esses instrumentos se mostram insuficientes, e o grupo liderado por Van Helsing precisará recorrer à combinação desses recursos modernos com armas baseadas em lendas e superstições. O próprio Van Helsing é resultado dessa mistura: como seu arqui-inimigo, ele também é um personagem que borra limites e fronteiras. Estrangeiro, cientista e místico, de forte sotaque germânico, expressando-se de modo estranho, por vezes cômico, vem de um país próximo e majoritariamente protestante. Entretanto, não é anglicano, ou mesmo protestante, mas um católico fervoroso.

Já o medo da mulher aparece na intensa e significativa presença da figura feminina. A inserção tão veemente do feminino traz consigo vários símbolos associados, como as paixões, a sexualidade e a sensualidade, a irracionalidade, a intuição, o sangue, da menstruação, da perda da virgindade, do parto. Em contraste com a objetividade e frieza do universo masculino, aqui os personagens se veem rodeados pelos ambientes úmidos, sujos e escuros, pelos odores intensos, pelos eventos místicos e fora de controle. Além da ameaça oriental, Drácula também representa o medo da dissolução da estrutura social e dos valores do patriarcado vitoriano, que se apoiava num ideal de mulher submissa e recatada. O que mais apavora Van Helsing, John Seward, Arthur Holmwood, Jonathan Harker e Quincey Morris é o despertar da sexualidade nas mulheres seduzidas pelo vampiro.

Um bom exemplo do medo que a libido feminina provocava nesses homens está na passagem em que Harker se depara com as três vampiras. Numa noite de lua cheia, insone, desobedece aos avisos de seu anfitrião e abandona seu quarto para investigar as outras dependências do castelo. Resolve passar a noite num cômodo onde, imagina, em antigas eras damas se sentavam, cantavam e sonhavam com homens distantes em guerras terríveis. Arrasta um sofá para poder adormecer apreciando a vista de florestas e montanhas. Cai no sono, até que desperta com a aparição de três jovens iluminadas pela lua. Espantado, repara que ao luar não projetam sombras. Aproximam-se dele, sussurrando entre si, duas morenas, de olhos profundos e penetrantes, quase vermelhos sob a pálida claridade noturna. A outra é muito clara, com grandes massas de cabelos dourados e olhos como safiras. As três exibem dentes muito brancos e brilhantes, que reluzem como pérolas entre lábios voluptuosos de rubi. Olhando-as, Harker se sente inquieto, entre lembranças nostálgicas e um medo mortal. Sente o coração arrebatado por um desejo perverso e ardente de que elas o beijassem com seus lábios vermelhos. Em seu registro, elas sussurram e riem, uma risada musical e ressonante, uma risada docemente melodiosa. A jovem mais clara faz um gesto faceiro e é encorajada pelas outras, dizendo que vá primeiro, pois há bastante dele para todas. Ele permanece quieto, olhando de soslaio, numa agonia de deliciosa expectativa, enquanto ela se põe de joelhos, inclinando-se sobre ele, com um olhar cheio de desejo. Harker sente uma volúpia deliberada, ao mesmo tempo excitante e repulsiva, quando ela aproxima a boca de seu pescoço, lambendo os lábios como um animal. Ele vê o brilho da lua em seus dentes, sente a maciez de sua boca sobre a pele e a pressão dos dentes em sua garganta. Então, fecha os olhos num êxtase langoroso, esperando com o coração acelerado. Neste momento, o Conde aparece, interrompendo-a, dizendo às três que Harker é dele. Para acalmá-las, entrega-lhes um saco com uma criança dentro. Como por encanto, o saco e as vampiras desaparecem em pleno ar. Em dois parágrafos, elas dão mais prazer a Jonathan do que Mina, sua esposa, em toda a narrativa.

O medo dos antagonistas de Drácula diante a sexualidade feminina fica bastante explícito na cena em que matam Lucy. Em seu diário, o Dr. Seward fala de como sua doçura havia se transformado numa crueldade dura e insensível, e como sua pureza fora substituída por uma desfaçatez cheia de luxúria. Quando a encontram, ela está sugando o sangue de uma criança. Ele descreve como ela solta a criança, rosnando como um cão protegendo seu osso. Diz que ela parecia uma versão de pesadelo de si mesma, com os dentes pontudos, o sangue sobre seu traje, a boca voluptuosa, provocando-os com sua aparência totalmente carnal, sem qualquer pudor, como se fosse uma zombaria diabólica da pureza da verdadeira Lucy. Diz que em sua voz havia algo de diabolicamente doce, como o tinir de um cristal ao ser tocado. Ao ver seu antigo noivo, abandona a criança e avança na direção de Arthur, os braços estendidos, famintos por ele, pedindo que deixe os outros e se entregue a ela. Hipnotizado, Arthur deixa que ela se aproxime, até que Van Helsing interfere, exibindo um crucifixo dourado. A lua aparece e ilumina a malícia infernal que tomou conta daquele rosto, antes rosado e belo. De repente, ela se transforma em fumaça e escapa pela fresta da porta de seu jazigo. Clamando agir em nome da decência e da pureza da mulher, da inocência das crianças, e em nome de Deus, Van Helsing orienta Arthur em um ritual de extrema violência, em que a pobre Lucy tem seu coração perfurado por uma estaca, enquanto se contorce terrivelmente, mordendo os próprios lábios e sangrando profusamente. Abalado, mas em paz com sua consciência, Arthur observa, enquanto sua falecida noiva recupera sua expressão angelical. Finalmente, depois de recolocá-la em seu lugar de mulher passiva e submissa, ele pode beijá-la com ternura. Agora, todos podem sair do jazigo para uma noite novamente doce e agradável, deixando que Van Helsing termine o serviço, cobrindo de alho o corpo mutilado, e decepando sua cabeça cirurgicamente.

Na próxima coluna, vamos falar sobre como Entrevista com o vampiro, de Anne Rice, atualiza e transforma a herança de Bram Stoker.

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