Postado por: Victor Tadeu

Título: Quando Fernando Morreu
Autora: Beatriz Lucio
Editora: Resistência
Gênero: Ficção
Número de páginas: 47
Onde adquirir: Amazon

Sinopse: Virgínia amou Fernando por quase vinte anos de sua vida. Ele era seu companheiro. Seu marido. Seu amante. O pai de sua filha. Com a morte dele, tudo desmorona. Os alicerces que a mantinham segura caem por terra. Antigos medos retornam para atormentá-la. Enfrentar um dia após o outro parece impossível, quando não se consegue enfrentar nem o que você realmente é.

Após passar uma grande parte da sua vida ao lado de Fernando, uma pessoa que amou com todas as forças, Virgínia encontra-se no fundo do poço, justamente devido a morte do seu amor. Agora, ela vive sem muitas perspectivas de vida, sempre estando em sua cama se remoendo pela perda do marido, o pai de sua filha e a pessoa que muito admirou.

Cansada de ouvir reclamações sobre o seu estado emocional, Virgínia resolve buscar forças de onde não sabia que tinha para viver como antes, porém nem tudo está sob seu controle, principalmente a empresa que tinha e toda a sua realidade.

Encontrando formas de se socializar novamente, nossa protagonista precisa quebrar barreiras que socialmente foram impostas nela e em outras pessoas, buscando mostrar para todos quem ela realmente é.

“O fim da linha é isso, você saber o que deve fazer, querer com todas as forçar realizar aquilo e, mesmo assim, não conseguir mover um dedo sequer.”

Quando Fernando Morreu, escrito por Beatriz Lucio, é o terceiro livro do projeto Todas as Letras do Arco-Íris, um projeto organizado por Maria Freitas e publicado através da Editora Resistência. Nessa narrativa acompanhamos a história de uma mulher bissexual vivendo um dos piores e melhores momentos da sua vida.

Depois de conhecer a protagonista depressiva de O Centro de Todo Caos — primeiro livro do projeto —, aqui também acompanhamos uma Virgínia também com nítidas decepções da vida, refletindo também em uma depressão. Mas, conforme a leitura desse curto livro, percebemos que o luto não é o único motivo de ter removido toda a sua esperança de viver, sendo esses outros fatores muito próximo da realidade de muitos LGBTs.

O preconceito enraizado é muito presente na narrativa de Quando Fernando Morreu, a nossa protagonista sofre muita intolerância partida por seus familiares, principalmente por julgá-la como uma pessoa promiscua, indecisa e entre diversos outros adjetivos que vários bissexuais já ouviram. Além disso, a autora puxa um gancho dessa perspectiva para fazer uma crítica à linha tênue de ser heterossexual e homossexual, onde a sociedade, e até mesmo alguns membros da comunidade LGBT, costuma enquadrar o bissexual em uma dessa sexualidade; se está com uma mulher é lésbica, caso contrário é hétero. Esse é uma das repugnâncias sociais que Beatriz Lucio propõe nessa história, entre diversas outras críticas muito bem construídas.

A preocupação de Virgínia em esconder a sua sexualidade, mesmo toda sua família sabendo dela, é tão problematizador que acaba trazendo diálogos capazes de nos tocar e incomodar, não partido da protagonista, mas sim da LGBTfobia de outras pessoas. A sabotagem partida de familiares também é outro assunto conversado nessa história, fazendo com que ela não trate somente sobre sexualidade, mas também atitudes que podem melhorar a sua saúde mental.

“Dizem que, às vezes, coisas ruins acontecem para que coisas boas possam vir.”

Beatriz Lucio escreve de forma bastante agradável e engajada, a proposta dessa história é muito admirável, mas existem algumas cenas — principalmente o romance acrescentado — que soa bastante forçado, o que poderia ser melhor trabalho. Porém, isso é apenas um detalhe, ele não tem o poder de prejudicar todo o enredo, já que esse romance nos apresenta uma das cenas mais importantes de todas e nos leva à muitas reflexões.

Virgínia é uma personagem traumatizada, mas consegue juntar os cacos que sobraram do seu coração para reativar sua vida, ao se tratar de uma história curta e sem muita profundida na origem dos personagens, ela é bem construída. Além dela, existem outras personalidades dessa obra que conseguem se destacar quanto ela, trazendo uma surpresa muito satisfatória e de aquecer o coração.




Como mencionado nas resenhas anteriores, a Editora Resistência conseguiu realizar um trabalho muito bom, necessário e cativante com esse projeto, tratando todas as histórias com muito cuidado, desde o incrível trabalho de capa realizado por Maria Freitas até a revisão impecável. É bom relembrar que Todas as Cores do Arco-Íris é publicado, até o momento, somente em edição digital.

Quando Fernando Morreu, escrito por Beatriz Lucio, é um livro que conversa muito sobre a importância de ser impor e nunca esconder a sua realidade para agradar os outros, uma história que lhe apresenta que assumir a sua sexualidade é tão poderoso quanto libertador e, se caso alguém não te aceite dessa forma, está tudo bem, existem diversas outras pessoas no mundo que não vai te tratar com diferença.

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