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Resenha

RESENHA: Quando Fernando Morreu

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Após passar uma grande parte da sua vida ao lado de Fernando, uma pessoa que amou com todas as forças, Virgínia se encontra no fundo do poço, justamente devido a morte do seu amor. Agora, ela vive sem muitas perspectivas de vida, sempre estando em sua cama se remoendo pela perda do marido, o pai de sua filha e a pessoa que muito amou.

Cansada de ouvir reclamações sobre o seu estado emocional, Virgínia resolve buscar forças de onde não sabia que tinha para viver como antes, porém nem tudo está sob seu controle, principalmente a empresa que tinha e toda a sua realidade.

Encontrando formas de se socializar novamente, nossa protagonista precisa quebrar barreiras que socialmente foram impostas nela e em diversas outras pessoas, buscando mostrar para todos quem ela realmente é.

Quando Fernando Morreu, escrito por Beatriz Lucio, é o terceiro livro do projeto Todas as Letras do Arco-Íris, um projeto organizado por Maria Freitas e publicado através da Editora Resistência. Nessa narrativa acompanhamos a história de uma mulher bissexual vivendo um dos piores e melhores momentos da sua vida.

Depois de conhecer a protagonista depressiva de O Centro de Todo Caos — primeiro livro do projeto —, aqui também acompanhamos uma Virgínia também com nítidas decepções da vida, refletindo também em uma depressão. Mas, conforme a leitura desse curto livro, percebemos que o luto não é o único motivo de ter removido toda a sua esperança de viver, sendo esses outros fatores muito próximo da realidade de muitos LGBTs.

O preconceito enraizado é muito presente na narrativa de Quando Fernando Morreu, a nossa protagonista sofre muita intolerância partida por seus familiares, principalmente por julgá-la como uma pessoa promiscua, indecisa e entre diversos outros adjetivos que vários bissexuais já ouviram. Além disso, a autora puxa um gancho dessa perspectiva para fazer uma crítica à linha tênue de ser heterossexual e homossexual, onde a sociedade, e até mesmo alguns membros da comunidade LGBT, costuma enquadrar o bissexual em uma dessa sexualidade; se está com uma mulher é lésbica, caso contrário é hetero. Esse é uma das repugnâncias sociais que Beatriz Lucio propõe nessa história, entre diversas outras críticas muito bem construídas.

A preocupação de Virgínia em esconder a sua sexualidade, mesmo toda sua família sabendo dela, é tão problematizador que acaba trazendo diálogos capazes de nos tocar e incomodar, não partido da protagonista, mas sim da LGBTfobia de outras pessoas. A sabotagem partida de familiares também é outro assunto conversado nessa história, fazendo com que ela não trate somente sobre sexualidade, mas também atitudes que podem melhorar a sua saúde mental.

Beatriz Lucio escreve de forma bastante agradável e engajada, a proposta dessa história é muito admirável, mas existem algumas cenas — principalmente o romance acrescentado — que soa bastante forçado, o que poderia ser melhor trabalho. Porém, isso é apenas um detalhe, ele não tem o poder de prejudicar todo o enredo, já que esse romance nos apresenta uma das cenas mais importantes de todas e levando à muitas reflexões.

Virgínia é uma personagem traumatizada, mas consegue juntar os cacos que sobraram do seu coração para reativar sua vida, ao se tratar de uma história curta e sem muita profundida na origem dos personagens, ela é bem construída. Além dela, existem outras personalidades dessa obra que conseguem se destacar quanto ela, trazendo uma surpresa muito satisfatória e de aquecer o coração.

Como mencionado nas resenhas anteriores, a Editora Resistência conseguiu realizar um trabalho muito admirável, necessário e cativante com esse projeto, tratando todas as histórias com muito cuidado, desde o incrível trabalho de capa realizado por Maria Freitas até a revisão impecável. É bom relembrar que Todas as Cores do Arco-Íris é publicado, até o momento, somente em edição digital.

Quando Fernando Morreu, escrito por Beatriz Lucio, é um livro que conversa muito sobre a importância de ser impor e nunca esconder a sua realidade para agradar os outros, uma história que lhe apresenta que assumir a sua sexualidade é tão poderoso quanto libertador e, se caso alguém não te aceite dessa forma, está tudo bem, existem diversas outras pessoas no mundo que te não vai te tratar com indiferença.


Título: Quando Fernando Morreu
Autora: Beatriz Lucio
Editora: Resistência
Gênero: Drama
Número de páginas: 47
Sinopse: Virgínia amou Fernando por quase vinte anos de sua vida. Ele era seu companheiro. Seu marido. Seu amante. O pai de sua filha. Com a morte dele, tudo desmorona. Os alicerces que a mantinham segura caem por terra. Antigos medos retornam para atormentá-la. Enfrentar um dia após o outro parece impossível, quando não se consegue enfrentar nem o que você realmente é.

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