RESENHA: Mãos Secas Com Apenas Duas Folhas
30 abr

RESENHA: Mãos Secas Com Apenas Duas Folhas

Notícias, Resenhas

Victor Tadeu

Título: Mãos Secas Com Apenas Duas Folhas
Autora: Paula Febbe
Editora: Monomito Editorial
Gênero: Ficção
Número de páginas: 105
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Adquira aqui: Livraria Monomito

Sinopse: Sala de espera de hospital. As senhas são as únicas coisas vivas de verdade ali. O aposentado Carlos Almeida espera sua vez.

Ele precisa manter a bunda na cadeira, seu pensamento não. E enquanto espera ser chamado, enquanto lava as mãos e seca com mais de duas folhas, enquanto vê um homem morrer, Carlos Almeida pensa, e muito.

Pensa em jovens estudantes ao seu lado em camas de moteis, na trágica morte da esposa, no neto que parou de falar, em sua juventude, na vizinha que desapareceu. Pensa nas mentiras que nos contam, nas mentiras que representamos e na mentira que ele é.

Nesta obra, a autora Paula Febbe conta uma história feia, sobre um mundo feio onde o mal se esconde por trás da face menos suspeita. “Mãos secas com apenas duas folhas” traz um enredo que envolve pedofilia e misoginia e anormalidade, onde a farsa é a protagonista.

Carlos Almeida é um aposentado que está esperando em uma fila de hospital para ser atendido, todos sabem que aquelas cadeiras duras são cansativas e muitas das vezes parecem uma prova de resistência. Porém, para o idoso aquele lugar é mais desesperador do que podemos imaginar, principalmente devido toda sua história de vida.

Incomodado com toda a situação, ele começa visualizar pessoas que remetem ao seu passado, o seu incômodo é visível. Carlos Almeida lava as mãos frequentemente e durante suas reflexões sobre suas ações vamos aprofundando cada vez mais em sua vida, onde ele nos apresenta as máscaras de mentiras da vida.

“Então vieram os conselhos por consideração. Eram tantos! Deveriam ser proibidos! Não são nada fiéis e abandonam descaradamente o senso de importância, sem ao menos se importar. (página 50)”

Mãos Secas Com Apenas Duas Folhas, escrito por Paula Febbe, é um livro curto lançado pela Monomito Editorial em 2018. A obra conta a história de um idoso enquanto espera uma longa e cansativa fila para ser atendido em um hospital, momento esse totalmente angustiante e bastante sufocante.

Infelizmente somos acostumados encobrir nossas verdades com algumas mentiras, assim para vivermos “confortavelmente”, porém um dia as máscaras caem e nem sempre conseguimos suportar a dor de um tombo. Carlos Almeida contará sua história, ela não será fácil de ser digerida, por isso, atente-se aos detalhes e não deixe ser enganado por um idoso fofo e atencioso.

Paula Febbe tem uma forma de escrita muito engajada e penetrante, ela está sempre levantando assuntos importantes e necessários dentro de suas histórias e em Mãos Secas Com Apenas Duas Folhas não foi diferente. A autora soube explorar algumas questões de forma tocante e muito próxima da realidade, fazendo o leitor refletir sobre sua visão e posição diante de muitos quesitos, consequentemente sendo uma obra que causará um impacto em quem está lendo.

O livro acaba se destacando por passar uma mensagem tão forte e pesada em apenas 99 páginas com poucas palavras que dizem muito. Além disso, a forma como vamos conhecendo a vida do aposentado também é um ponto relevante da história, pois todas as informações apresentadas são remetem a uma pessoa real, manipulando o leitor e aproximando-o de uma realidade fictícia não distante do nosso cotidiano.

“Vamos todos nos comportar como se Deus não existisse, e então saberei melhor se eu existi ou não. (página 59)”

Carlos Almeida é um homem misterioso e problemático, ele é bem construído e a autora conseguiu fazê-lo ser marcante na vida de qualquer leitor. Ao contrário de muitos outros livros, esse personagem vai navegar e incomodar você durante um bom tempo após a leitura, a forma perturbadora que vamos conhecendo a sua história e seus problemas sociais e individuais é intensa, e ao mesmo tempo, assustadora.

Paula Febbe é uma autora que escreve história para causar uma experiência impactante no leitor, como presente em Cartas no Corredor da Morte (escrito junto com Cláudia Lemes) ela desenvolve um ritmo de leitura frenético ao ler das páginas, mecanismo esse perfeito para quem está lendo sentir o sufoco do protagonista. O tempo inteiro ela faz uma analogia com a quantidade de folhas para secar as mãos, porém esse momento é viável para diversas interpretações, assim, reunindo um combo de elementos incríveis dentro do enredo, desenvolvendo um título perturbador.

A Monomito Editorial realizou um trabalho muito agradável com a edição deste título, a ilustração de capa feita por Leandro Bender condiz muito com a história e faz uma alusão compreensível ao finalizar a leitura. A qualidade dos materiais para o exemplar físico são ótimos e a diagramação feita por Samantha Monteiro é simples e, ao mesmo tempo, agradável, principalmente o fato dela ter feito ilustrações de papéis no título de cada capítulo — os capítulo literalmente são uma página, somente alguns divergem.

Mãos Secas Com Apenas Duas Folhas não é um livro vazio e que será esquecido em questão de dias, Paula Febbe conseguiu desenvolver uma história curta e totalmente perspicaz, onde o leitor se questionará e refletirá sobre diversos assuntos, principalmente em relação a sua posição diante de alguns assuntos sociais, consequentemente tirando-o do conformismo.

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