Siga nossas redes sociais

Entretenimento

RESENHA: A Cachorra

Um livro incrivelmente profundo que merece mais atenção

Publicado

em

O drama pode estar escondido no mais singelo dos enredos. A vida esconde complexidades do desenvolvimento humano que podem ser fascinantes de acompanhar dado o contexto certo. No caso de A Cachorra, este contexto é a escrita de Pilar Quintana que se joga em uma história de origem simples que explora a destruição de tudo que é puro.

Acompanhando a adoção de uma cachorrinha abandonada, a autora conta a história de Damaris, uma mulher simples de um vilarejo da Colômbia que sempre sonhou em ter filhos, porém nunca conseguiu ser mãe. Projetando todos os seus desejos frustrados na cachorra, a mulher deve enfrentar as dificuldades e realidades da criação.

A Cachorra, Pilar Quintana – foto meramente ilustrativa – (Imagem/Mockup)

O livro descreve as relações humanas de modo animalesco, citando palavras tais como “cria” para se referir aos contextos das pessoas. A Cachorra se inicia quase com alguns presságios, infiltrando uma sensação de desconforto no leitor que se depara com um surpreendente toque de terror psicológico. Pilar Quintana descreve os acontecimentos de maneira crua e desapegada, deixando os eventos trágicos da vida de Damaris falarem por si próprios.

A Cachorra discute muito sobre o tema de destruição da pureza. O simbolismo da natureza engolindo aquilo que é bom e devolvendo algo podre é carregado por todo o livro de maneira a adicionar um toque poético à história. O desenvolvimento da personagem de Damaris acompanha este tema, questionando a essência da protagonista diante certos eventos. O leitor vai descobrindo aspectos de sua personalidade que acabam afetando seus relacionamentos durante o enredo.

A Cachorra, Pilar Quintana – foto meramente ilustrativa – (Imagem/Mockup)

A poesia por trás da simplicidade pode ser interpretada de várias maneiras diferentes. Uma visão interessante seria a partir de uma metáfora bem elaborada sobre depressão pós-parto e os desafios da maternidade. A essência do livro é rica discutindo muitos sobre os valores de até onde vai a criação e a destruição.

Pilar Quintana criou um livro incrivelmente profundo que merece mais atenção. O enredo simples não consegue expressar a complexidade poética desenvolvida pela autora que por muitas vezes faz o leitor se perder em uma monstruosidade íntima e obscura que todos temem se entregar.


Título: A Cachorra
Autora: Pilar Quintana
Editora: Intrínseca
Gênero: Drama, ficção
Número de páginas: 160
Onde comprar: Amazon

Sinopse:
Desde muito cedo, a vida de Damaris é marcada por tragédias e, apesar da companhia de Rogelio, carrega uma solidão que talvez tivesse sido aplacada pelo filho que nunca conseguiu ter. Cuidar da casa de veraneio há muito abandonada pela família Reyes ocupa seus dias, alivia sua consciência pelo que sente ter sido omissão sua no passado, mas nada disso lhe traz conforto.

Quando, num rompante, decide adotar a cachorra da ninhada de uma vizinha, Damaris tem a chance de desviar um pouco o foco das tentativas frustradas de engravidar. A fêmea que agora circula pela casa modesta faz aflorar instintos protetores e violentos, emoções díspares e profundas que supostamente só poderiam ser despertadas pela maternidade. A força e a intensidade dessa relação alteram tão drasticamente as dinâmicas de sua existência que Damaris já não sabe se a simples presença da cachorra fez sua vida ganhar ou perder, de uma vez por todas, o rumo.

Breve e magnético, A cachorra se passa em um cenário de dualidades entre beleza e violência. Ambientado em uma bolha de tempo desacelerada, na qual os acontecimentos se desenrolam com a típica lentidão sazonal de uma cidade de veraneio, é um romance contundente sobre vidas marginalizadas em um contexto bastante familiar aos leitores latino-americanos.

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © 2020 Desencaixados. Todos os direitos reservados.