Finita
23 abr

Finita

Coluna

Victor Tadeu

Era antiga. Antiga, mas não velha. Sua pele continuava alva e lisa como no dia em que fora criada. Seus cabelos volumosos tão negros como a mais escura noite e seu corpo esguio era tão ágil como sempre. Ainda assim andava devagar. O tempo não se manifestava em seu corpo como fazia em outras criaturas, mas deixava marcas em sua alma. Alma, ela tinha uma. Por muito tempo acreditou que não possuía alma ou salvação, depois, durante anos a dúvida a perseguiu até que finalmente convenceu-se de que não poderia fazer o que havia sido predestinada se não a possuísse. Por isso, naquela noite, arrastava os pés pelas ruas movimentadas, contrastando com a urgência da multidão, não tinha pressa.

Sorvia os aromas da noite, procurando entre a fumaça dos carros e o perfume dos corpos, o cheiro da vida. As árvores eram poucas, as flores, raras, mas nelas encontrava o delicioso cheiro da natureza. Lembrava saudosa da época em que tudo ali era mata e dos animais correndo entre as árvores. Tudo destruído pelo homem.

O homem era uma criatura egoísta e destrutiva, o pior dentre todos os animais que já haviam caminhado por sobre a terra, apesar, disso ela os amava. Demorou séculos para admitir, mas amava a humanidade com todos seus defeitos. Amava-a em cada imperfeito detalhe.




Alcançou a casa que buscava e entrou sem dificuldade. Ninguém a ouviu. Observou as fotografias sobre os móveis, cada uma guardava uma história. Perscrutou cada cômodo antes de encontrar quem procurava. Ela sabia onde estava, soubera desde que entrara na casa, mas protelou o encontro, como vinha fazendo a noite toda.

A criança foi a única que a viu. Ninguém mais poderia, ainda não chegara sua hora. A garotinha a olhou nos olhos e sorriu, afinal ela não era uma figura assustadora, pelo contrário, era amiga e gentil. A família continuava, alheia a companhia que os observava. E era tudo que fazia, observava. Havia se passado uma hora e ela continuava na mesma posição. Falava a si mesma que estava apenas esperando a melhor hora, mas não tinha que se explicar a ninguém além dela mesma, por isso não podia mentir, sabia a verdade.

Pousou a mão esguia e acariciou seu instrumento de trabalho. Muito mais antigo que ela, mas tão ágil e certeiro como no dia em que fora criado em algum fogo sagrado e perpétuo cujo ninguém mais lembrava. A lâmina afiada brilhava comichando na ponta de seus dedos. Quantas vezes já a tinha usado… Quantas vidas foram ceifadas por aquela mesma lâmina. Todas, era a resposta. Todas as vidas que já haviam deixado o mundo passaram por aquela lâmina, ou por uma de suas irmãs, forjadas no mesmo fogo, filhas do mesmo metal e moldadas pelas mesmas mãos… Ela não as conhecia, suas irmãs de profissão que possuíam as outras lâminas, nunca as vira. Era um trabalho solitário. Será que alguma delas sentia o que estava sentindo agora? Sabia que não era a primeira.

Lembrava-se do dia em que começou sua jornada, substituindo alguém que se esgotara daquele ingrato serviço. Não viu seu rosto, apenas os dedos, tão longos e finos como os dela própria, passando-lhe a lâmina fria que agora segurava. “Vá e faça seu trabalho até que não possa mais”, foi lhe dito. Ela sempre pensava como seria, quando não pudesse mais fazer seu trabalho. Quem a diria para parar? Nunca pensou que seria ela mesma a decidir. Afinal, nunca tivera patrão, por que começaria agora no final?

Segurou firme o cabo da pequena foice e cortou. Um único corte, rápido e limpo. Nenhuma gota de sangue verteu enquanto o corpo da mulher caia inerte no chão. Diriam que foi infarto.

Saiu pelas ruas esperando seu castigo, afinal, apesar de nunca ter tido ninguém para lhe falar o que fazer, sabia que aquilo não fora certo. Tinha cometido um pecado abominável: tirou a vida de alguém que ainda não lhe pertencia.




Tinha experimentado muitos sentimentos ao longo dos séculos, ganância, soberba, ódio, inveja, amor… Tudo aquilo ela podia suportar, mas nunca poderia sentir pena. Compaixão não era algo compatível com seu mundo. Por isso, no momento em que entrou naquela casa viu que seria sua última vez. Não sentia pena da criança que levaria, mas da mãe que veria a filha morrer. Quantas crianças já tinha levado? Mas agora sentia que não podia, havia se tornado humana demais.

Os minutos se passaram e ao invés do castigo, surgiu a sua frente uma bela mulher que lhe sorria. Jovem, em todos os sentidos. Não só os lábios sorriam, mas todo seu corpo, os olhos, as mãos… Apressou-se em cobrir o rosto antes de lhe entregar a lâmina, “Vá e faça seu trabalho até que não possa mais”. As palavras saíram de seus lábios sem que percebesse. A jovem entrou na casa para terminar o trabalho que deveria ser seu. Não, não mais. Aquilo não mais lhe pertencia.

A brisa fresca da noite encontrou seu corpo e ela deixou ser tomada. Os aromas que buscava mais cedo agora emanavam de seu próprio corpo e ela os apreciou vagarosamente antes que se desvanecessem no ar e se tornasse nada mais que uma brisa perfumando a noite. A sua frente à estrada de cascalhos se abriu. Por todos aqueles anos levara as almas humanas àquela estrada, mas nunca lhe fora permitido adentrá-la, nunca soubera o que havia ao final. Respirou profundamente guardando os cheiros mundanos da natureza e pé ante pé, a Morte caminhou pela estrada do fim.

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