Ficção vs Realidade
28 jan

Ficção vs Realidade

Coluna, Notícias

Victor Tadeu

Proponho um desafio: procure, em qualquer meio que preferir, sobre Ficção vs Realidade; leia as notícias, artigos e colunas (caso faça na internet) ou leia as definições no dicionário; agora, tente diferenciar uma coisa da outra. Conseguiu?

Eu não consigo, e, acredite, leio bastante sobre isso. A grosso modo, ficção é tudo aquilo que não é real; realidade é o que o próprio nome diz. Mas todo livro de ficção é puramente ficção? E toda realidade é puramente realidade?

Com exemplos bem conhecidos vou explicar que a resposta para tais perguntas é não. Pegue um livro de Isaac Asimov, um dos mestres da Ficção Científica, autor de Eu, Robô e da saga A Fundação. Mesmo sendo do tipo científico, tais livros são ficção. Porque? Por causa do tempo ser num futuro? Se ficção é tudo aquilo que não é real, como pode Asimov tratar sobre robôs com emoções e consciência e termos, atualmente, robôs idênticos a humanos com raciocínio? Mas ok, não vamos entrar nessa questão futurística. Pegando o exemplo da saga A Fundação, ao analisarmos as questões políticas que movem A Fundação, podemos concluir que nada daquilo é real? Não. Então não podemos afirmar que todo livro de ficção é puramente ficção.

Saindo da literatura de Ficção Científica e indo para algo mais, digamos, surreal. Animais falantes. Vamos pensar no clássico que até crianças conhecem: fábulas. Ora, sabemos que animais não falam, não do modo que humanos entendam, mas aquilo tudo é ficção? Que jogue a pedra quem nunca viu, a história d’A Cigarra e a Formiga se concretizar na sua frente. Ou a boa e velha fábula d’O Leão e o Rato? Então, novamente, não podemos afirmar que todo livro de ficção é puramente ficção.

Outro clássico, e envolvendo animais: A Revolução dos Bichos.

Confesso que não li o livro, mas me senti mal e resolvi começar pela versão em quadrinhos do clássico do George Orwell. Estaria mentindo se eu dissesse que não vi cenas históricas acontecendo ali, diante dos meus olhos. Ao invés de humanos, eu via porcos, cavalos, ovelhas, galinhas e outros animais.

Até agora, concluímos que ficção científica e ficção envolvendo animais falantes são realidades, mesmo que em pontos mais específicos. Se sabemos que nenhuma ficção é puramente ficção, porque em muitas obras de entretenimento, não conseguimos nos desvincular disso?

Juro que não é propaganda, mas o exemplo cai bem:

Tenho um romance publicado chamado É Proibido Sorrir. Enquanto eu escrevia, eu procurava alguns tipos de tortura que aconteceram ao longo da História, os maiores exemplos foram da “Caça as Bruxas” e da Ditadura Militar Brasileira. Minha mente não era capaz de inventar uma barbaridade daquelas, mas, infelizmente, não era preciso me preocupar em inventar formas de tortura, outros fizeram isso por mim há anos (ou séculos). Ao escrever, eu continuava inventando situações para mulheres. Publiquei o livro achando que eu havia chegado no meu limite para inventar atrocidades. E então, descobri que não. Que a maioria do que as mulheres no meu livro enfrentavam, muitas mulheres enfrentam até hoje em outros países, se elas não enfrentam ainda, já enfrentaram em algum ponto da História Geral. Descobri que a minha ficção era uma realidade um pouco mais exagerada, mas ainda sim realidade.

Quando nos deparamos com situações que estão fora do nosso cotidiano, você vê um certo absurdo, um certo quê fictício ali. Agora, o questionamento é outro: e quando elas estão no nosso cotidiano?

Talvez aí entre a “romantização”. A ficção e a realidade se tornam mais próximas, não permitindo que vejamos com clareza onde uma começa e a outra termina. A romantização torna as coisas mais brandas, bonitas e menos dolorosas, tratando de forma ficcional uma realidade que talvez não queiramos ver, ou aceitar que ela existe. Isso se torna uma ajuda para enxergar a realidade, como ela é ou como ela pode ser. Ao mesmo tempo em que ela pode ser usada para fins solucionáveis, algumas romantizações podem ser um problema, visto que nos apresentam uma realidade que não é de fato.

Mas como saber, naquela ficção, ou romantização do assunto, o que é ficção, o que é realidade, o que está alterado ou não? Talvez um dos modos para conseguir diferenciar melhor, seja criar empatia e ir atrás das questões. Ao ir atrás de respostas para questionamentos, pode ver que não há nada bonito em adorar um professor pedófilo. E ao criar empatia, podemos entender que não há nada bonito em aceitar que uma aluna passe por isso. Se eu for entrar em questões de certo ou errado em romantizações, eu me prolongaria demais, e desnecessariamente, afinal, esse não é o nosso assunto agora.

Voltando aos questionamentos que eu trouxe no início, de certa forma, aceitamos que nenhuma ficção é puramente ficção. Agora, pensemos na outra pergunta: e a realidade?

Claro, se você for pegar uma autobiografia, estamos diante de acontecimentos que envolveram o autor. Ao pegar uma biografia, estamos diante da realidade pesquisada sobre a tal pessoa. Mas mesmo esse tipo de literatura, que busca ser o mais real possível, está salvo da ficção? Ao trazer questões como essas, entramos num ramo histórico que trata a memória. Sabemos que a memória é seletiva. É normal termos os ditos “brancos” de certos momentos, ou simplesmente esquecermos o que nos levou até uma situação ou o que nós fizemos de fato. Por não nos lembrarmos de absolutamente tudo, automaticamente, nós inventamos. Claro, não inventamos que fomos passear entre uma galáxia e outra, mas inventamos que quando criança, fomos fazer alguma bagunça em algum lugar. Pensando dessa forma, toda realidade é puramente realidade?

Em autobiografia, acabei respondendo que não. E em biografia? Imagine biografia de pessoas que morreram há muito tempo, como por exemplo, uma biografia que adoro muito, Catarina, a Grande, escrita por Robert K. Massie. Biografias se baseiam em pesquisas, isso sabemos. Em fontes escritas, orais, materiais. Mas essas fontes são puramente realidade? Se nem autobiografia escapa, quem dirá as fontes, e consequentemente, as biografias. A cinebiografia, é absolutamente verdade? Não há a possibilidade de quererem dar a impressão de algo? Querer dar a impressão que um fato favoreceu um e prejudicou outro, por exemplo?

Não estou dizendo que autobiografia e biografia mintam, longe disso. Fui estudante de História, dou certa credibilidade a essas pesquisas. Mas trago esses pontos, para entendermos que existe a ficção, mesmo que uma porcentagem quase nula, dentro de um livro, ou filme, que é destinado a ser a mais pura realidade.

No nosso dia a dia, estamos lidando com ficção. Para quem escreve, ficção. Para quem vê filme, ficção. Para quem sonha acordado, ficção. Uma vez li, que até nossos sonhos não escapam da ficção. Claro, sonhamos com aquilo que conhecemos, mas muitas vezes as situações em si não existem, ou não poderiam existir. Assim como usamos a ficção para preencher lacunas em branco das nossas memórias, usamos também para explicar o que não conhecemos. Um exemplo clássico, são as lendas. De onde vinha os relâmpagos? Zeus. De onde viemos? De algum Deus (ou Deusa) que sangrou e assim, fez com que existíssemos. Onde está um objeto que perdi? O saci, um menino travesso, pegou.

Após todos esses exemplos, que poderiam se estender muito mais, talvez consigamos responder as perguntas: a ficção é puramente ficção? E a realidade? É puramente realidade? E então, trago outro questionamento: no final das contas, o que é ficção e o que é realidade?

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