Crítica – Amores Expressos (1994)
03 mar

Crítica – Amores Expressos (1994)

Coluna, Desafio Cinéfilo

Julia Giarola

Dando o ponta pé inicial na nossa nova parceria com o blog Cinema Depois do Café, gostaríamos de apresentar o projeto Desafio Cinéfilo, onde nossa equipe do Desencaixados irá trocar indicações de filmes com Vinicius Liessi do blog, fazendo a crítica dos filmes indicados. Essa primeira análise é do filme de 1994, Amores Expressos.

Filme: Amores Expressos
Título original: Chung Hing sam lam
Ano de lançamento: 1994
Duração: 1h 37min
Direção: Wong Kar-Wai
Gênero: Drama
Nacionalidade: Hong Kong, China

Sinopse: Nas ruas de Hong Kong, uma mulher misteriosa usando peruca loira, um jovem policial que a persegue em meio à multidão e uma jovem sonhadora terão seus destinos cruzados. Todos os três em um grande caleidoscópio de cores.

Amores Expressos é um filme honconguês, dirigido e escrito pelo aclamado cineasta Wong Kar-Wai. Seu título original serve como uma metáfora a Hong Kong como uma selva de concreto, retratando o paradoxo de, mesmo vivendo na densamente metrópole, a maioria de seus habitantes é solitário e vive em seu próprio mundo interior. O filme é dividido em duas histórias aparentemente distintas, tendo como personagens centrais policiais, ambos que se encontram sofrendo por terem sido abandonados pela mulher que amavam. Um filme aclamado entre os cinéfilos e os artistas do próprio meio, o longa de 1994 recebeu divulgação até mesmo por parte de Quentin Tarantino que exalta o incrível trabalho visual e dramático de Wong Kar-Wai.

Percebendo a importância de atores e personagens carismáticos, Wong Kar-Wai explora o desenvolvimento e evolução desses personagens antes de tudo. Focando na solidão ao dar destaque aos protagonistas em suas vidas separadas, o filme mostra muito bem a necessidade que todos têm de sempre estar com alguém. A conexão criada entre as pessoas não vem somente de dentro dos episódios separados, mas também na correlação entre essas histórias que compartilham personagens e ambientes em comum, além de transcender o tema da não idealização do amor, sem minimizar sua importância, quão instantâneo seja.

Durante ambas as história vemos um conceito recorrente sobre o poder de um só dia, um só momento que pode mudar toda sua vida. A interessante ideia sobre mudança – seja essa de comportamento ou até mesmo em relação às pessoas que nos rodeiam – Amores Expressos tenta mostrar a rapidez com que nossa rotina pode ser perturbada, com ênfase de como nós nunca esperamos que as coisas mudem. Porém, assim como mostrado nas duas histórias, os relacionamentos deixados para trás representam a inevitabilidade da mudança e também sua inegável necessidade.

Com visuais únicos, Wong Kar-Wai utiliza o efeito step printing – que consiste em filmar as cenas com uma frequência menor de imagens por segundo – para mostrar como visualizar o tempo em seu universo, onde este é corrido e lento ao mesmo tempo. Esta manipulação do tempo alcança a ideia que tudo passa, sem interpretar essa noção como algo negativo. A inevitabilidade do término das coisas, como relacionamentos não deve ser percebida com melancolia ou romantização, mas simplesmente como parte da jornada, coletando memórias e pessoas durante o caminho.

Destacando as luzes de neon hipnotizantes de Hong Kong, juntamente a trilha sonora melancólica, o filme mistura o minimalismo de filmes independente assim como a peculiaridade do cinema do autor, trazendo histórias charmosas sobre a fragilidade dos relacionamentos e personagens específicos que quase se desassociam do meio ao redor em cenas como as de câmera lenta. A alternação entre cenas aceleradas e desaceleradas pedem a atenção da audiência para ações dos personagens; e pedem a atenção dos personagens para o ambiente em que estão inseridos.

Qual diferença um dia faz? É assim que Amores Expressos deixa sua marca em um dos melhores anos do cinema moderno (1994), ponderando um roteiro leve e divertido com uma mensagem completa e profunda sobre conexão, solidão e acima de tudo mudança, explorando o naturalismo e a beleza das coisas como elas são, como olhar para essas coisas, focando não apenas no começo, mas também nos finais seja de relacionamentos ou de uma simples lata de abacaxi.

Nossa nota é:

Gostaram do projeto Desafio Cinéfilo? Então continue acompanhando nossa colaboração com o blog Cinema Depois do Café e não perca as próximas indicações que serão analisadas por nossa equipe e por Vinicius Liessi. E não se esqueça, se quiser a análise de algum filme específico basta nos desafiar… Deixe seu desafio abaixo!

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