As várias faces dos triângulos
06 fev

As várias faces dos triângulos

Coluna, Notícias

Victor Tadeu

Trinta minutos.

Foi o tempo que durou o choque pós-apresentação.

Imagine ir assistir uma peça de teatro com teor histórico e sair de lá com nada além de lágrimas, dezenas de lágrimas, uma atrás da outra. E depois disso, questionamentos. Eu apenas abria a boca, tinha tanta coisa passando na minha cabeça, mas não conseguia falar uma coisa de cada vez, na verdade, não conseguia falar nada.

Acho incrível como uma conversa banal nos leva para pesquisas históricas. Numa dessas conversas banais de passeio de carro, soube que nos campos de concentração nazista, os prisioneiros eram marcados. Sabemos dos judeus e a estrela, nessa conversa descobri que eram estrelas amarelas. Outra coisa que descobri foi que homossexuais eram marcados com o triângulo rosa. E numa pesquisa rápida na internet, descobri que o triângulo: amarelo: judeu; vermelho: criminoso político (ex: comunista); verde: criminoso comum; roxo: opositor religioso (ex: Testemunha de Jeová); azul: imigrantes; castanho: cigano roma; preto: mulheres (lésbicas ou anti-sociais, ex: feministas); e o rosa. Eu poderia entrar em mais detalhes das vestimentas, ou conversas sobre os campos de concentração no Brasil, mas isso é assunto para outra aula de História.

Por falar de História e da Segunda Guerra Mundial, vamos analisar alguns fatos. Milhões de judeus mortos nos campos de concentração, milhares de homossexuais mortos, mais de um milhão de ciganos mortos em um assassinato em massa, dezenas de milhares de civis e de soldados mortos. Sabemos disso, vemos isso com frequência. Usamos os números como meros números.

Conhecemos as histórias de testemunhas, a incrível Anne Frank, por exemplo. Lemos livros de relatos, pesquisas, estudos sobre o assunto. Lemos romances como O Menino do Pijama Listrado e A Menina Que Roubava Livros. Temos acessos a documentários, filmes romanceados ou não, puxados para a ficção ou não.

Mas onde se encaixa o choque de trinta minutos com tudo isso?

Ao estudar História (na escola, na faculdade ou de curiosidade), os acontecimentos fatídicos se tornam comuns. Tipos de vestimentas do campo de concentração, comuns. Números de mortos, se tornam comuns, puras estatísticas. Os conhecimentos passados pelos mais diversos meios de comunicação, se tornam histórias. Nós lemos no século XXI algo do século XX. Há uma certa distância temporal entre os fatos, e por mais que estudemos, não vivenciamos aquilo. O relato é sempre mais chocante de quem viveu do que de quem pegou de documentos, não é mesmo?

Agora, voltemos a imaginar.

Você vai para uma peça de teatro, no calor do verão de Janeiro. Se chama “Os homens do triângulo rosa”, você escuta que não será fácil e entra numa boa no teatro. O início é ótimo, muito engraçado e a história flui. Até o primeiro homossexual ser morto. Mas mesmo assim, você aceita. É um personagem, que era gay, que foi morto. Coisa simples, coisa comum. E então, eles são capturados. E o companheiro do protagonista é morto. Mais um homossexual morto, mais um para a estatística.

Mesmo que, até o momento, dois homossexuais tenham morrido, o mais chocante foi ver Max, um dos homossexuais capturados, dizer que ele precisou “fazer amor” com “ela”. Sabemos que desde o início, Max era homossexual (ele e seu companheiro, morto). O outro prisioneiro pergunta por mais e Max nos esclarece: os guardas o levaram até um lugar (a princípio, um vagão do trem que estavam sendo transportados) e o obrigaram a “transar” com uma menina, de, aproximadamente, treze anos. Morta com um tiro na cabeça. O corpo ainda quente. Max fez o ato repugnante, apenas para afirmar que não era “bicha”, como eles dizem muito na peça.

A trama continua e somos apresentados a diversas situações, uma pior que a outra. Necrofilia. Soldados mandando prisioneiros escolherem se queriam se matar ou serem mortos (os guardas pegavam o chapéu do prisioneiro e jogavam na cerca elétrica. Ou o prisioneiro era morto pelo guarda, por não ir pegar o chapéu, ou ele morria ao tocar na cerca, por ir pegar o chapéu). Tortura psicológica. Mas acima de tudo isso, somos apresentados ao amor.

Max usou o uniforme de judeu. Não, ele não era judeu. Era homossexual. E ao contrário do companheiro de cena que usava o triângulo rosa, Max tinha medo de se assumir. Fazia de tudo para sobreviver. Até encontrar o amor ali dentro.

A pergunta que chocou muito foi quando ele, num momento dramático, se perguntava por que não podiam amar, por que era tão errado amar outro ali, um outro igual a ele.

O clímax chegou e a peça terminou. Os atores nem ficaram para falar com o público, apenas agradeceram e foram embora. Assim como eu. Assim como eu tentei. No caminho da porta até o meu carro, chorei muito. E ao entrar no carro, chorei mais ainda.

Trinta minutos depois e eu respirei fundo para entender o motivo de tudo aquilo.

E então eu percebi.

Lembra que falei que quando estudamos História, nos acostumamos com a estatística? Com o comum? Isso foi um dos fatores principais. O fato de ver pessoas reais (mesmo que atores) contando aquela trágica história no meio de um momento tenebroso da História, fez com que eu vivenciasse aquilo. Saí dos números generalizados e fui apresentada a um individualismo. Os relatos de sobreviventes de campos de concentração saíram das folhas dos livros, das telas de computador e televisão e se apresentaram ali, em forma humana.

E aquilo foi o chocante. Por 120 minutos eu estive na frente de pessoas que “vivenciaram” o campo de concentração. Que procuravam o amor no meio do caos. Que contaram o início, meio e fim de suas histórias. E então, os números deixaram de ser estatísticas e viraram seres humanos.

Deixaram de ser quatro homossexuais mortos na minha frente e passaram a ser milhares de mortos. Deixou de ser uma menina morta e estuprada e passou a ser centenas de meninas. Naquele momento, percebi como uma apresentação teatral daquele nível com aquele assunto, é importante. E talvez sempre será.

Importante para nos chocarmos com o que aconteceu. Diminuir o máximo possível a linha temporal que separa “nós” daquele momento, e até de outros. Importante para expandir nossos pensamentos e sentirmos medo pelo outro. Eu senti pena do Max, mas também senti do meu conhecido que também é homossexual. E fiquei imaginando a dor que foi quando ele viu a peça (há anos), o medo que sentiu quando aceitou quem era, o medo que vive todo dia num país violento. Eu senti pena da menina morta e estuprada, mas também temi pelas dezenas de meninas que são estupradas e mortas todo dia, que são sequestradas, e também temi pelas dezenas de meninas e mulheres que temem isso todo dia, o tempo todo. Particularmente falando, eu temi por mim mesma também.

Além de florescer a empatia no nosso interior, a peça permite que vejamos a ambiguidade na sociedade. De um lado, a nossa empatia com o próximo, do outro, a capacidade humana de fazer aquilo tudo.

Esse é o poder da arte. Quando falo de arte, me refiro a tudo: música, filme, literatura, dança, teatro e outros. O poder de nos aproximar de situações que um dia aconteceram, ou de nos aproximar do outro. O poder de fazer a gente ir além daquilo, além da apresentação, além das folhas de um livro.

O pior sentimento que tive (ou um dos) na peça, foi o fato de querer que tudo aquilo fosse uma invenção absurda, mas eu sabia que não era. Que tudo aquilo aconteceu, ainda mais quando disseram que pesquisaram sobre o assunto, e que sim, o ser humano é capaz daquilo e de muito mais.

“Os homens do triângulo rosa” é uma peça que devia ser mostrada a todos, sempre que possível. Nos faz ver em duas horas, o ponto horroroso que o ser humano já chegou; a capacidade que ele tem de ultrapassar o limite; a força que uma ideologia pode ter nos outros; como a pessoa pode se esquecer de questões morais quando se tem poder. Nos fez ver também o preconceito que estava presente naquela época e como ele é facilmente visto até os dias de hoje. Mas acima de tudo, a peça nos fez ver, em duas estranhas horas, que por mais que a solidão seja enlouquecedora, também há espaço para o amor, em diversas situações, e, acima de tudo, para a esperança.

“Os homens do triângulo rosa” é uma maravilhosa peça gaúcha, baseado na peça Bent, de Martin Sherman, dirigida por Margarida Peixoto, adaptação da dramaturgia e músicas escritas por Marcelo Ádams e realizada pela Cia Teatro ao Quadrado.

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