RESENHA: Um Milhão de Finais Felizes
21 dez

RESENHA: Um Milhão de Finais Felizes

Notícias, Resenhas

Victor Tadeu

Título: Um Milhão de Finais Felizes
Autor: Vitor Martins
Editora: Globo Alt
Gênero: Ficção/LGBT
Número de páginas: 352
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Sinopse: Jonas não sabe muito bem o que fazer da vida. Entre suas leituras e ideias para livros anotadas em um caderninho de bolso, ele precisa dar conta de seus turnos no Rocket Café e ainda lidar com o conservadorismo de seus pais, sua mãe alimenta a esperança de que ele volte a frequentar a igreja, e seu pai não faz muito por ele além de trazer problemas.
Mas é quando ele conhece Arthur, um belo garoto de barba ruiva, que Jonas passa a questionar por quanto tempo conseguirá viver sob as expectativas de seus pais, fingindo ser uma pessoa diferente de quem é de verdade. Buscando conforto em seus amigos (e na sua história sobre dois piratas bonitões que se parecem muito com ele e Arthur), Jonas entenderá o verdadeiro significado de família e amizade, e descobrirá o poder de uma boa história.

Jonas tem dezenove anos e vive em São Paulo junto com seus pais, sendo sua mãe bastante religiosa e seu pai extremamente acomodado. Convivendo com dois extremos em uma sociedade dotada de preconceitos ele não sabe como lidar com a aceitação da sua sexualidade, principalmente como esconder e/ou contar parar seus pais.

Trabalhando no Rocket Café, um estabelecimento com a temática espacial na Avenida Paulista, o jovem leva uma vida totalmente entre altos e baixos, onde tenta aliviar toda a tensão em livros e na escrita. Aproveitando os intervalos (ou não) Jonas tem o incrível hábito de escrever títulos para futuros livros em seu caderno que contém diversos outros.

Porém, certo dia vivendo rotineiramente no Rocket Café ele atende um homem bastante atraente cuja a ideia de uma história apareceu imediatamente em sua mente. Vendo o cara de barba ruiva, Jonas tenta desenvolver um romance de piratas gays, um projeto que pretendia levar para frente, contrário de diversos outros dramas criados rapidamente e sem muitas pesquisas.

Passando os dias explorando todo o amor entre os piratas e se pegando pensando no cara de barba ruiva, Jonas acaba se surpreendendo ao reencontrar Arthur, o responsável pela ideia da história. Convicto, o jovem estava disposto a fazer de tudo para conhecê-lo, entrando em uma grande aventura socialmente arriscada.

“A felicidade dela depende da minha infelicidade. A minha felicidade seria a infelicidade dela. E eu não sei qual dos dois cenários seria pior. (página 77)”

Um Milhão de Finais Felizes é o segundo livro de Vitor Martins publicado pela Globo Alt, inclusive foi um dos destaques da 25ª Bienal Internacional do Livro SP, realizada neste ano no Pavilhão de Exposição da Anhembi. A obra é da temática LGBT e se aproxima muito da realidade com os temas apresentados e questionados em torno da história.

Uma pesquisa realizada pela Consultoria de Engajamento Santo Caos afirmou que 63% dos jovens sofrem rejeição total, ou parcial, dos familiares ao assumirem sua orientação sexual. Infelizmente esse é o reflexo do preconceito presente em nossa sociedade, por isso ao tratar do assunto precisamos ser o mais cuidadoso e realista possível, e em Um Milhão de Finais Felizes essa atenção foi tomada pelo Vitor Martins.

Aprofundando na descoberta da sexualidade, na aceitação da família e de toda a sociedade em si, o livro se mantem nas nuances e problemas familiares de Jonas, onde o conservadorismo e o machismo são dois extremos muito presentes. Além disso, o escritor aproveita esse gancho para levantar questões de religião, sociais, políticas e entre outras para demonstrar como a homofobia tem influência da ignorância desenvolvida por esses setores.

Escrever histórias dentro de um livro é uma ideia aparentemente comum para alguns escritores, principalmente na literatura estrangeira onde diversos autores já dotaram a ideia, como Stephen King em Misery – inclusive tem referência do escritor no livro. – Apesar disso, essa aplicação não é muito realizada na literatura nacional e Vitor Martins soube trabalhar de forma encantadora com a história dos Piratas Gays, apostando em um romance entre caras bastante brutos, demonstrando que o amor estar presente em diversos lugares.

“É inacreditável a minha habilidade de me jogar para baixo e entrar em um espiral de desespero e, ainda assim, parecer pleno e equilibrado por fora. (página 97)”

Com a aproximação de Jonas com os seus amigos, o livro consegue fazer uma alusão muito reflexiva com o verdadeiro significado de família e amizade, onde seus amigos conseguem ser mais presentes e viáveis do que os seus pais. Também demonstrando o amor presente na comunidade LGBT, a obra desenvolve um romance muito apaixonante, não somente de Jonas, mas também de seus amigos, nos ensinando o quanto a diversidade é presente entre pessoas – independe da orientação sexual, identidade de gênero e manifestação artística.

A representatividade é um dos fatores mais presente em toda a história, onde o escritor conseguiu explorar diversos assuntos extremamente presentes no dia a dia de um LGBT de forma clara e honesta. Além da orientação sexual, Vitor Martins também utilizou alguns personagens para levantar outras intolerâncias presentes em nossa sociedade, como a gordofobia no meio de entretenimentos que trabalha com a estética, assim, utilizando a sua amiga de trabalho como um gancho incrível para este tema.

A Globo Alt conseguiu realizar um trabalho editorial simples, mas admirável com toda a construção física desta obra. Apostando em uma capa chamativa, os capistas Holiventrae (Helder Oliveira) e Gabriel Gonzalez e o ilustrador do verso Rafael Gimenes desenvolveram um trabalho que revela muito e ao mesmo tempo pouco sobre a trama. Mesmo sendo simples, a diagramação feita por Douglas Kenji Watanabe é confortável para a leitura, contendo uma fonte agradável e a divisão de capítulos bem esquematizada.

Um Milhão de Finais Felizes, o segundo livro de Vitor Martins é uma história muito próxima da realidade de inúmeros LGBTs que explora de forma encantadora o verdadeiro significado de amor, família e amizade. Entre risos, paixões, reflexões e desentendimentos o título acaba nos conquistando de forma leve e humorada em diversos quesitos.

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