RESENHA: Simon vs. A Agenda Homo Sapiens
20 mar

RESENHA: Simon vs. A Agenda Homo Sapiens

Resenhas

Julia Giarola

Título: Simon vs. A Agenda Homo Sapiens
Autor: Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Gênero: Romance / Jovem adulto / LGBT
Número de páginas: 272
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Sinopse: Simon tem dezesseis anos e é gay, mas ninguém sabe. Sair ou não do armário é um drama que ele prefere deixar para depois. Tudo muda quando Martin, o bobão da escola, descobre uma troca de e-mails entre Simon e um garoto misterioso que se identifica como Blue e que a cada dia faz o coração de Simon bater mais forte.

Martin começa a chantageá-lo, e, se Simon não ceder, seu segredo cairá na boca de todos. Pior: sua relação com Blue poderá chegar ao fim, antes mesmo de começar.

Agora, o adolescente avesso a mudanças precisará encontrar uma forma de sair de sua zona de conforto e dar uma chance à felicidade ao lado do menino mais confuso e encantador que ele já conheceu.
Uma história que trata com naturalidade e bom humor de questões delicadas, explorando a difícil tarefa que é amadurecer e as mudanças e os dilemas pelos quais todos nós, adolescentes ou não, precisamos enfrentar para nos encontrarmos.

Ainda há muita discussão sobre a melhor maneira de ser inclusivo. Muitos acreditam que lidar com os temas mais pesados tais como o preconceito ou até a violência direcionada aos grupos marginalizados é um bom lugar de começar. E sim, isso funciona muito bem, abrindo os olhos das pessoas que não estão familiarizada com essa violência. Porém, quando se trata de intolerância, a maioria das vezes esse tipo de abordagem não atinge a grande massa que ainda não considera certas comunidades como parte obrigatória da população. A partir daí existe uma outra bordagem, um modo simples e eficaz de quebrar barreiras de gênero, raça e sexualidade mostrando como somos todos iguais. Contando uma história familiar sobre juventude e as mudanças da adolescência, Simon vs. A Agenda Homo Sapiens chega trazendo inclusão, gestos gentis e personagens carismáticos, sem excluir nenhum leitor.

Situado em um mundo reconhecível em nossa cultura popular atual, este livro escrito por Becky Albertalli oferece uma leitura leve que pode ser comparada com a experiência de assistir à um bom filme (um excelente filme, na verdade). A narração em primeira pessoa imediatamente entrega o protagonista em um estado vulnerável e extremamente íntimo. Seu relacionamento com os amigos, sua família e correspondente anônimo é estabelecido perfeitamente através dos diálogos naturais. São essas diferentes dinâmicas entre Simon e as diversas pessoas em sua vida que oferecem nosso primeiro exemplar da vida do garoto, este que depende tanto do seu ambiente para reconhecer suas próprias mudanças durante a história.

É tudo muito familiar e, mesmo apresentando uma temática LGBT, o livro oferece uma visão inclusiva que permite que todos reconheçam as situações e os sentimentos vivenciados pelo protagonista. Este aspecto de Simon vs. A Agenda Homo Sapiens é extremamente interessante, explorando uma inclusão que apresenta a melhor maneira de quebrar barreiras entre grupos diferentes, nesse caso, a sexualidade. A história de Simon mostra como somos todos iguais e como normalmente temos as mesmas ansiedades, os mesmos medos. As amizades de Simon definem muito como ele enxerga o mundo e como ele lida com seu, então, segredo.

“Mas acho que preciso disso. Preciso da violência dos video games e do cheiro desse porão e da sensação familiar que Nick e Leah me transmitem. O ritmo da nossa fala e nossos silêncios. A falta de objetivo das tardes de outubro.” – Página 13

Caracterizando muito bem todos os personagens, é na vida de Simon que ficamos investidos, apesar de todas as pessoas que aparecem em sua vida deixarem suas marcas de uma maneira ou de outra. Ao chamar a responsabilidade de contar uma história sobre identidade e despertar sexual, Simon vs. A Agenda Homo Sapiens estabelece um ritmo sutil onde constrói o mundano, mas também o mistério. Enquanto Simon tenta descobrir quem é seu misterioso correspondente anônimo com quem ele tanto se conecta, nós presenciamos a evolução de seus sentimentos não apenas em relação à Blue, mas também em relação a si mesmo, este que está em constante mudança.

“Ele falou sobre como você pode decorar os gestos de uma pessoa, mas nunca saber o que se passa na cabeça dela. E ter a sensação de que somos como casas com aposentos enormes e janelas pequenininhas.” – Página 22

Alternando entre narrativa e as trocas de e-mails anônimos entre Simon e Blue, o livro cria uma dinâmica importante para estabelecer, e nos fazer entender, a relevância das situações através deste esquema. Simon vs. A Agenda Homo Sapiens constrói seu enredo em volta de um tema  interessante sobre as diferentes mudanças que passamos e como as pessoas em nossas vidas lutam para preservar nossa imagem enquanto crescemos, sem esperar que ela mude. Estas mudanças não estão apenas relacionadas à sexualidade, mas também nossos hábitos e o que gostamos, porém sem modificar quem realmente somos.

“Mas estou cansado de sair do armário. Tudo que faço é sair do armário. Tento não mudar, mas estou sempre vivendo essas pequenas mudanças. Arrumo uma namorada. Tomo uma cerveja. E todas as vezes, preciso me reapresentar para o universo.” – Página 54

Apesar de ser bastante inclusivo quando se trata de leitores, Simon vs. A Agenda Homo Sapiens também lida com o problema social envolvendo a homossexualidade, mostrando seu efeito diante uma visão não necessariamente conservadora, mas de certo modo intolerante. As normas criadas em volta das pessoas da comunidade, como o desafiante ato de “sair do armário” é discutido, criando um diálogo saudável sobre a relevância e o peso desta decisão. Por que são apenas os membro da comunidade LGBT que devem passar por uma dessas situações, sendo que a homossexualidade não deveria ser vista como a quebra de um molde? O livro mostra muito bem este ponto de vista que deveria ganhar mais foco nas conversas atuais.

“É mesmo muito irritante que hétero (e branco, diga-se de passagem) seja o normal e que as pessoas que precisam pensar sobre identidade sejam só aquelas que não se encaixam nesse molde. Os héteros deviam mesmo ter que sair do armário, e quanto mais constrangedor fosse, melhor. O constrangimento devia ser obrigatório. Seria esse a nossa versão da Agenda Homossexual?” – Página 131

No começo do livro existe bastante correlação entre fantasias (como no Halloween) e identidade. As máscaras que colocamos para o mundo nem sempre nos protegem das pessoas. A conexão entre Simon e Blue mostra muito bem como a vulnerabilidade pode finalmente quebrar esse padrão de comportamento de se esconder atrás de fantasias ou de uma simples tela de computador, em vez disso, se arriscando em enfrentar as inseguranças e então modificando nossas vida.

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