RESENHA: O Meu Melhor Amigo é Gay
23 maio

RESENHA: O Meu Melhor Amigo é Gay

Resenhas

Victor Tadeu

Título: O Meu Melhor Amigo é Gay
Autor: Dielson Vilela
Editora: Editora Coerência
Gênero: Drama/Literatura LGBT
Número de páginas: 256
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Sinopse: Carlos e Márcio são dois amigos de longa data. Um dia, um acontecimento leva Carlos a descobrir que o seu melhor amigo, Márcio, é gay. Ele se vê paralisado diante dessa revelação. E, agora?

Em meio a essa surpresa, Carlos se torna testemunha de um crime covarde, e decide criar um blog para narrar as angustias que o sufocam. Nesse processo, ele se depara com a violência motivada pelo preconceito que traz como vítimas vários segmentos considerados minorias pela sociedade.

“O meu melhor amigo é gay” traz um repensar profundo sobre as dificuldades de diálogo e de convivência causados pelo preconceito e pela intolerância diante das diferenças, despertando-nos sobre como muitas vezes somos levados à empatia de histórias que ocorrem longe de nós, mas a ter uma atitude contrária quando estão próximas, em nosso convívio diário. Faz-nos enxergar que o valor da vida está acima das diferenças, através de um desenrolar de fatos marcantes, surpreendente e de tirar o fôlego do leitor!

Voltando tarde da noite para casa, Carlos decide cortar caminho pelo Parque Treze de Maio com o intuito de chegar mais rápido ao ponto de ônibus. O parque já estava próximo a fechar e o garoto presencia uma das piores cenas de sua vida. Mais a frente — no parque — um grupo de garotos encapuzados estavam rodeando um morador de rua fazendo ameaças horríveis, infelizmente o final daquela situação não foi positiva. O morador de rua que nada tinha feito foi morto com dois tiros na cabeça, a notícia passou em vários jornais e já em casa — após o acontecimento — Carlos queria ir à delegacia contar o que tinha ouvido nos assassinos, mas sua mãe muito conservadora preferiu que ele não entrasse no meio da história.

Alguns dias atrás Carlos brigou com seu melhor amigo, Márcio. Tudo aconteceu quando eles estavam comemorando o último ano escolar da turma e muitos ali estavam esperando o resultado dos vestibulares, então tudo era motivo de comemoração. Durante a festa quase todos já estavam alcoolizados e Guilherme — um garoto totalmente intolerante e rico — inventa de cheirar cocaína e distribuir entre os participantes da festa, aquele ato causou discórdia e acabou com uma briga entre Márcio e Guilherme.

“Com raiva desliguei a TV. Era tão inacreditável ver a cara de que a repórter fez depois de ter anunciado uma brutalidade daquelas. Ela parecia feliz em noticiar as atrações para o final de semana, como se isso fosse nada, como se aquela notícia fosse tão comum que não fizesse diferença para ninguém o fato ocorrido, como se as atrações para o final de semana fossem muito mais importantes do que aquele crime. (página 21)”

Foi durante essa briga que Carlos e todos os seus amigos descobriram que Márcio é homossexual — não direi como, pois é considerado spoiler —, a forma que a maioria das pessoas soube da “noticia” foi totalmente cruel e sem noção, principalmente da parte do seu melhor amigo. Inconformado com tudo que havia acontecido, Carlos resolve criar um blog com o nome O Meu Melhor Amigo é Gay para tentar reconciliar a sua amizade com Márcio, só que as coisas estavam mais do que complicadas. Um grupo de jovens intolerantes estavam matando pessoas que se encaixam como minorias pela sociedade — moradores de rua, travesti, crianças carentes, índios e afins —, além disso, o seu amigo que também é considerado como minoria estava sem dar notícias e tinha acabado de ser expulso de casa.

Infelizmente a introdução da obra vai ficando por aqui, pois durante a leitura acompanhamos Carlos publicando em seu blog sobre a sua amizade com Márcio. Eu não posso dar continuidade a trama inicial, pois tenho medo de soltar algum spoiler sem perceber, então para não estragar a leitura de ninguém eu prefiro deixar vocês com a curiosidade do que aconteceu com Márcio e como ele está lidando com os acontecimentos. Mas é válido lembrar que durante a resenha irei abordar assuntos importantes da história que vão ajudar vocês terem uma visão mais ampla da obra.

O Meu Melhor Amigo é Gay, de Dielson Vilela é um livro totalmente gritante e importante na sociedade que vivemos. Ele foi publicado pela Editora Coerência, é uma literatura LGBT e aborda assuntos muito relevantes.

Esse foi o segundo livro que fiz a leitura com a temática LGBT. Com disse na resenha de Não Tão Primos, eu estava muito incomodado com a minha ausência na literatura LGBT, mas acabei recebendo a proposta da Editora Coerência e recebi alguns exemplares da editora e entre eles vieram os dois — Não Tão Primos e O Meu Melhor Amigo é Gay. — As minhas expectativas com essa obra estavam altas e felizmente o autor conseguiu alcançar todas elas.

Como muitas pessoas vem dizendo; o livro é necessário. Quando falando de livros com personagens homossexuais, transexuais e afins, sempre pensamos em críticas sociais sobre aquele público, e foi justamente isso que pensei quando comecei a fazer a leitura de O Meu Melhor Amigo é Gay. Felizmente o Dielson conseguiu quebrar positivamente as minhas expectativas, pois além das críticas sociais com os LGBTs ele conseguiu fazer alertar sociais com todas as outras “minorias” que a sociedade rótula. Eu fiquei extremante feliz por isso, pois ele conseguiu falar sobre homofobia, transfobia, falsos cristãos, contradição bíblica e intolerância religiosa e cultural — é válido lembrar que o autor não desrespeita nenhuma religião.

O bom de tudo isso é que o autor não para por ai, ele não elimina os personagens principais e “secundários” das intolerâncias e ignorância ao assunto, o foco é mantido o tempo inteiro e a forma que os personagens lidam com as minorias me incomodou bastante — é intencional da parte do autor —, pois personagens que eu não esperava cometeram homofobia com muita agressão verbal. Mas por outro lado eu super entendo a intenção do autor, pois durante a leitura as coisas vão se encaixando e alguns personagens deixam de serem alienados. Um grande exemplo e que não é considerado spoiler é o protagonista Carlos.

Outro ponto super relevante que o autor pensou muito bem foi a forma que Carlos lidar com a homossexualidade no geral. Depois de presenciar a morte do morador de rua e reconhecer o erro, aparentemente ele pesquisa sobre o assunto e melhora o seu entendimento sobre em relação as intolerâncias da sociedade, só que é muito comum as pessoas que estão começando a entender sobre sexualidade usar o termo “opção sexual” — o termo certo é orientação sexual, ninguém escolhe a sexualidade, muito pelo contrário, ela se orienta —, eu fiquei muito feliz em saber que Dielson Vilela conseguiu ficar atento com esse detalhe, assim enriquecendo MUITO a história tornando-a mais realista.

Esteriótipo é outro assunto que o autor destrói por completo, pois Márcio — o protagonista homossexual — é extremamente diferente do que a sociedade tem costume de rotular com o LGBT. Ele é muito bom em futebol, já beijou várias meninas — o que é considerado fachada — e em nenhum momento fez com que seus amigos percebessem a sua verdadeira sexualidade. Em comum com os outros homossexuais, mas não posso generalizar porque nem todos são assim, Márcio defendia um colega de classe que tinha trejeitos afeminados e muitas das vezes ele já foi “xingado” por defender o garoto, mas fora isso os esteriótipos são eliminados por completo.

“— Não, você não vai saber. Você nunca vai saber o que é ter medo de ser você mesmo só porque as pessoas preferem não lhe entender e respeitar. (página 111)”

Eu acho que deixei bem nítido que os personagens criados pelo Dielson Vilela foram muito bem projetados, mas é válido lembrar que todos eles têm muito que nos ensinarem durante a leitura do livro. O legal de tudo isso, é que cada um é capaz de nos surpreender de formas diferentes, seja os protagonistas ou personagens secundários, todos eles nos ensinam lições de vida extremamente importantes para uma vida socialmente saudável.

O cenário escolhido pelo autor foi muito bem descrito, até porque ele mora no local e conseguiu nos passar informações muito relevantes; como o Parque Treze de Maio e outros locais citados durante a história. O que podemos adicionar como mais um ponto positivo, pois torna a história mais real. Andei pesquisando no Google e infelizmente alguns ou todos os casos citados na história são baseados em fatos reais, Dielson até colocou na dedicatória o nome deles para um melhor entendimento.

A diagramação do livro está impecável, o trabalho editorial da Coerência sempre me surpreende e em O Meu Melhor Amigo é Gay eles conseguiram ser muito criativos. Em cada capítulo é encontrado uma layout de website como se fosse as publicações do blog que Carlos estava escrevendo, além disso, em alguns capítulos também encontramos plataforma de “CARREGANDO” e no final da livro tem a ferramente de formatos para finalizar a sua utilização com o notebook/computador. A capa do livro é muito coerente com a história, o notebook aberto na parte da frente e fechado atrás condiz muito com todo o enredo, sem falar que a fonte e o espaçamento das palavras são ótimos e colabora para uma leitura muito prazerosa.

Sinceramente, eu me apeguei tanto na história que fiz a leitura em menos de 24 horas e devido ao final da obra eu chorei muito. Não sou de me emocionar com livros, mas a forma que me apeguei aos personagens e torci para que tudo desse certo, mexeu com meus sentimentos e chorei feito criança — de revolta — com o final da história, e para não estragar a leitura de vocês, eu recomendo não olharem as últimas páginas pode ser um GRANDE spoiler.

Portanto, eu vou usar o rótulo que as pessoas estão usando para definir o livro e fazer uma indicação em especial; o livro é necessário para você que infelizmente é intolerante ou não acha certo determinada decisão, o livro é necessário para você que avha certo engavetar um crime, o livro é necessário para você que acha certo e comum filhos de organizadores de instituições — igrejas — serem extremamente agitados, o livro é necessário para você que não importa com os sentimentos dos outros, ou seja, o livro é necessário para qualquer pessoa que prefere julgar e apontar o dedo antes de realmente conhecer a vitima.

Leia também:

RESENHA: Não Tão Primos.
RESENHA: Despertar – O Encontro da Força.
Parceria com a Editora Coerência.
Leitura em Conjunto: Tim Atlas, na Montanha das Harpias.

Comentários

  • Rayanni Kellsin

    Olá, tudo bem?
    Nossa que post e resenha cheia de amor, deu para sentir o quanto gostou da obra, e eu aqui fiquei muito curiosa sobre a leitura, ah ♥
    Amei, e dica mais que anotada.
    Um beijo.

  • Maria Luíza Lelis

    Olá, tudo bem?
    Eu ainda não conhecia esse livro, mas fiquei muito interessada em ler. Infelizmente, a intolerância e a violência contra várias minorias ainda é muito presente em nossa sociedade, portanto, obras assim são muito necessárias.
    Fiquei ainda mais interessada em ler por você ter falado que autor abordou não apenas a homofobia, mas também fez alertas com outros grupos considerados “minorias”. Acho que isso deve trazer ainda mais diversidade e representatividade para a obra.
    Adorei ler sua resenha e conhecer esse livro. Já vou adicioná-lo na minha wishlist.
    Beijos!

  • Leandro Brito

    Oi. Tudo bem?
    Confesso que é a primeira vez que ouço falar desse livro e já reconheço o papel importante que ele tem em nossa sociedade. Infelizmente, a intolerância existe e acredito que a literatura pode ser um caminho para superar esse mal que causa tantas coisas ruins. Fiquei bem interessado de ler o livro, para conhecer mais sobre essa história que parece muito interessante. Espero conseguir pegar para ler em breve. Gostaria de contar que adorei a sua resenha, sobretudo os parágrafos finais.
    Abraço!

  • Diane Ramos

    Olá…
    Adorei sua resenha!
    Gostei bastante de seus comentários e parece ser um livro que tem muito a ensinar aos preconceituosos de plantão. Gostei das mensagens embutidas na história e acho que é uma leitura bastante atual, principalmente por falar sobre pessoas que preferem julgar e apontar o dedo antes de realmente conhecer a vitima.
    Adorei a dica!
    Bjo

  • Patyi

    Bom, se o livro é importante pra sociedade que vivemos nesse momento, é claro que é leitura indispensável. Já li outros livros com a temática, mas ainda não conheço esse autor. O que também me atraiu nesse foi o fato dos personagens secundários terem seu foco. Pela sua resenha percebe-se que esse não é apenas um a mais entre os livros do gênero. Gostei e anotei a sugestão.

    Beijos

  • Ivi Campos

    Nossa, fiquei master curiosa com o livro, principalmente pra saber como que descobriram que le era gay. A cena inicial da violência com o morador de rua me chocou um pouco, mas quero ler AGORAAAAAAA
    Valeu pela dica

  • Jéssica Christina

    Oie, tudo bom?
    Adorei a resenha, pois adoro a temática e é um tema a ser muito explorado ainda! Fiquei curiosa sobre as circunstâncias em que o segredo dele foi descoberto, e como os amigos irão se reconciliar, SE conseguiram. Bela resenha!

  • Alem de uma Prateleira

    Olá, essa é a primeira vez que tenho contato com a obra do autor, até hoje eu nunca li nada sobre LGBT. Não sei se é impressão minha mas acho que tem muitos blogs que ainda não vi resenha sobre esse tema que infelizmente ainda é um grande tabu em nossa sociedade. Vou anotar e assim que possível tentarei adquirir esse livro pois a idéia dele me chamou muito a atenção.

    Beijos

  • Lara Caroline

    Olá! Parabéns pela resenha, ficou ótima, cheia de detalhes podendo nos fazer entrar um pouquinho na história. Não costumo ler livros com esse tema, porém gostei bastante dessa trama. Infelizmente, apesar de o mundo estar mudando, ainda existe muita intolerância, as pessoas não se tratam mais como seres humanos iguais, como somos. Mesmo não tendo lido, concordo com você que essa leitura é muito válida, e não só para os intolerantes, para todos que precisam ser mais humanos. Beijos, Psiu, Vem Ler!

  • Oie!
    Depois de tudo o que passou sobre a história, fiquei bem curiosa para ler, ainda mais que traz um assunto tão atual.
    Infelizmente, a sociedade ainda é muito preconceituosa e não aceita isso, mas acredito que vai mudar.
    Gostei muito dessa dica.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

  • Naylane Sartor

    Oie!

    Eu não sou fã de livros desse gênero, mas tenho uma amiga que ama e com certeza ela irá amar a leitura dessa obra, eu passo a dica, mas como você acho sim muito importante as pessoas lerem sobre, e abrirem seus olhos para aquilo que elas teimam em achar normal, como preconceitos etc, o mundo está mudando e com ele as pessoas precisam mudar também e respeito é a principal mudança que tem que vir de todos!

    Bjss

  • Daniela Souza

    OI.

    Este livro eu ainda não conhecia, mas pelo título parecer ser uma leitura muito boa. Me interessei pelo enredo e achei o fato de alguns casos serem reais um ponto a mais na história. Vou pesquisar sobre o livro e mais sobre o autor. Assim que surgir uma oportunidade, eu vou tentar ler o livro.

    Beijos.

  • Amanda Colares Stach de Campos

    Olá!
    Achei muito interessante a temática desse livro, pois a violência contra as minorias cresce a cada dia, e precisamos falar a respeito disso.
    Ótima dicaa!
    Um beijo

    http://www.asmeninasqueleemlivros.com

  • Que presente lindo esse autor trouxe para seus leitores! Achei a premissa muito interessante, pois o tema é algo muito comum , tanto pelo fato das pessoa se assumirem e pelo lado de haverem outras pessoas serem intolerantes e agressivas. Imagino que não há como não se emocionar mesmo e com uma linguagem prática assim se torna uma leitura cativante. Dica anotada!

  • Bruna Costabeber

    Hey, tudo bem?
    Ainda não li esse livro, mas estou bem curiosa para ler, pois acho a premissa desse livro interessante e já vi muitas pessoas falarem que o livro não é estereotipado. Fiquei intrigada para saber como toda a trama se desenvolve e conhecer esse cenário descrito pelo autor, que parece fascinante.
    Sua resenha e as fotos estão incríveis.
    Beijos,
    http://www.umoceanodehistorias.com/

  • Francine Nunes

    Olá!
    Eu não conhecia essa obra, mas quero muito ler! Amo livros que abordem esses temas, que abordem o preconceito e a intolerância. Recentemente li o livro A resposta, que fala do preconceito racial no estado do Mississípi na década de 60. Foi maravilhoso ler a obra e acredito que ler esse livro será tão bom quanto.
    abs e parabéns pela resenha ^^

  • Thayenne Carter

    Olá,

    Ultimamente, eu ando lendo muito esse gênero e estou adorando os que já li. Já tinha ouvido falar nesse livro, porém a oportunidade de fazer essa leitura ainda não surgiu, espero mudar isso em breve, pois gostei bastante do que escreveu em sua resenha.

    Beijos,
    oculoselivrosblog.blogspot.com.br/

  • drielymeira

    Oiee ^^
    Sabe que os meus livros favoritos são aqueles que possuem ou abordam o tema LGBT? Não sei por que, acho que tem algo a ver com o David Levithan, que é um dos meus autores favoritos…haha’
    Ainda não conhecia esse livro, e confesso que no início da resenha minha curiosidade não estava atiçada, pois fiquei tentando entender o quê o crime teria a ver com o desentendimento dos amigos… Mas agora eu tô doida de ansiedade! Quero muito ler esse livro! Saber que você gostou tanto só me deixou ainda mais curiosa.
    MilkMilks ♥

  • Priscila Alexandre

    Não conhecia o autor e nem sua obra.

    Acho que para além da crítica social que você cita, a questão de representatividade também. É raro encontrar protagonistas LGBT em obras populares, então ver que está ganhando espaço no mundo blogueiro é um ponto muito positivo. É necessário mesmo, como você diz, falar sobre a violência contra as minorias. Falar sobre as “fobias” (acho o termo absurdo, mas tudo bem)… Faz bem para a saúde física e mental de todos!

    Abraços!
    http://www.asmeninasqueleemlivros.com

  • Aurelino Lucena

    Acabei de adquirir o livro na Bienal do Livro de PE. Conversei com o autor, ele é maravilhoso.
    Já estou ansioso pela leitura.