RESENHA: Mulheres Que Não Sabem Chorar
06 jun

RESENHA: Mulheres Que Não Sabem Chorar

Resenhas

Victor Tadeu

Título: Mulheres Que Não Sabem Chorar
Autora: Lilian Farias
Editora: Giz Editorial
Gênero: Ficção
Número de páginas: 210
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Sinopse: A vida de Marisa é regida pelo controle. Seja à frente do seu trabalho ou da vida dos filhos, ela é racional, mantendo-se sempre fria, um ser à parte das banalidades, cuja única preocupação é ser um exemplo. Olga é sua antítese. Sentimentos à flor da pele, dor flagelando a carne, pensamentos embaçados pelo esquecimento proporcionado pelo álcool. Sozinha, preocupa-se em apenas ser, em um mundo cercado por fatos que não reconhece mais como seus. Enquanto isso, Ana e Verônica esbarram com o acaso.

Duas senhoras solitárias, vizinhas e antagônicas. Será que um dia alguém acharia que poderiam viver em paz? Mais ainda, será que poderiam se apaixonar? Duas jovens livres e independentes. O que as impede de ficar juntas?

A rivalidade entre vizinhos é bem comum em uma sociedade incapaz de tolerar as características alheias, esse problema não é recente, até mesmo porque fomos ensinados a seguir os padrões que nossos responsáveis sempre pregaram. Infelizmente essa miséria educação resulta de forma trágica na vida de muitas pessoas, principalmente na da vítima.

Muitas mulheres hoje em dia sofrem dessa educação que na maioria das vezes compartilha o ódio, o índice de agressão contra mulheres no Brasil é extremamente absurdo, mais de mil denúncias foram registradas somente no Carnaval, ou seja, em 4 dias mais de mil mulheres sofreram alguma forma de violência.

Em Mulheres Que Não Sabem Chorar iremos conhecer Olga e Marisa, duas mulheres na meia idade que tiveram um passado conturbador e totalmente contra os seus prazeres. Marisa foi aquela típica mulher que namorava para manter o padrão social de “ciclo de vida” nas reuniões de famílias, ela nunca gostou ou demonstrou afeição por qualquer homem, mas devido o impulso familiar namorou vários e acabou sozinha junto com seus dois filhos. Por outro lado temos Olga, uma mulher que prefere se acabar com álcool — alcoólatra — do que viver a realidade que a perturba, quando nova sofreu muito por não gostar de homens e muitas das vezes foi nomeada como aberração.

“O modo impulsivo com que trocava de namorados não era uma certeza do que queria, era apenas para ter o que dizer nas rodas de conversas familiares, que ela alimentou até a morte dos pais. Não aceitava ser vista pelas mulheres casadas como a pobre viúva. (página 27)”

O passado dessas mulheres infelizmente não proporciona uma boa convivência entre elas. Olga e Marisa são vizinhas que não sabem viver em harmônia, como Olga vivia nas ruas, alcoolizada e totalmente sem noção do que estava acontecendo ao seu redor, acabava chamando a atenção das pessoas e Marisa sempre aproveitou o estado não-sóbrio de Olga para causar intriga, além disso, em todas as brigas entre elas o “álcool” era o principal motivo.

A situação acaba mudando após uma cena totalmente desumana e gritante. Ambas acabam tornando amigas, assim conhecendo melhor uma a outra e jogando fora todo o passado que as perturbam. E durante a leitura de Mulheres Que Não Sabem Chorar, de Lilian Farias iremos conhecer mulheres — não é somente Olga e Marisa — que desde novas levam uma vida extremamente alienadas que acabam considerando o deplorável como algo comum.

Antes de começar a dizer como foi a minha experiência com a obra, saiba que eu tive MUITA dificuldade em começar a escrever essa resenha, principalmente em com inciar a introdução da trama inicial. Pois o livro conta história de mulheres que conforme a leitura for feita acabam se encontrando, e isso acabou me deixando um pouco impossibilitado de escrever o início de forma mais aberta como tenho o costume.

Podemos visualizar nitidamente que o livro aborda muito assuntos sobre o empoderamento feminino, e a forma que a autora conseguiu abordar o tema foi simplesmente perfeito. Além disso, a Lilian conseguiu incluir sexualidade na história de uma forma tão sútil e compreensível capaz de curar todos aqueles que tem algum problema com os LGBTs. Assim dando uma grande originalidade na sua obra, pois os personagens construído por elas têm características muito marcantes e fortes.

Como dito os personagens criados por Lilian são fortes e marcantes, mas andei dando uma pesquisada sobre a carreira da autora e as inspirações que ela teve aos escrever o livro. Acabei descobrindo que todas as histórias são baseadas em fatos reais, e quando descobri a origem do título eu fique muito chocado, achei muito intenso como ele foi escolhido e eu vou deixar uma entrevista da escritora no final da resenha para vocês saberem mais.

Uma coisa que me agradou muito durante a leitura, foi que os diálogos de Olga e Marisa têm muita alerta social que até mesmo os críticos sociais não conseguem visualizar, e se visualizam acabam não comentando. Eu tenho um olhar muito atento com as críticas que autores fazem em suas obras e durante o meu Ensino Médio fiquei muito rico em assuntos do tipo, mas nunca passou pela minha cabeça que alguns homens também sofrem machismo — na verdade já pensei sobre, mas acreditei não existir —, é um ato que passei muito na minha vida que acabei acreditando ser normal, como as personagens do livro, acabei me sentindo a Olga quando li a cena que tem esse diálogo.

“— Talvez. Sei que nós mulheres sofremos preconceitos, humilhações, privações e até violência. Mas, caso o homem não queria perpetuar a ideologia machista, ele sofrerá igual ou mais que a mulher. Por exemplo, caso ele não se importe em ser casado aos 40, de duas, uma, ou é galinha ou homossexual. Ou, então, se é casado e não quer paquerar outras mulheres, o infeliz é mole, pau mandado da mulher etc. Se gosta de plantas, é fresco; se não perde a virgindade precocemente, coitado! E se ele não é um machista convicto, então a coisa fica feia, ele é marginalizado pela sociedade. Posso ficar toda a noite falando desses exemplos que são reais e tão cruéis quanto o que nós mulheres, vivenciamos. Na realidade, homens e mulheres são machistas e homens e mulheres sofrem com isso. (página 99)”

Outra crítica social que não é o foco da história, mas que serve muito para algumas mães é a superficialidade social. Marisa foi uma mãe que sempre colocou seus filhos em situações competitivas, fazendo-os tirarem notas altas em avaliações e sempre buscando torná-los melhores que os outros, isso vai de competição esportiva a estudos educacionais. Infelizmente isso acontece muito em algumas famílias, e a meu ver é um ato escravo, você forçar seu filho a se dedicar para ser melhor do que seus amigos ou até mesmo que seus irmãos, é ser escravo de uma sociedade perfeita.

O livro tem várias outras críticas e alertas sociais que eu poderia citar nessa resenha, mas vou deixar que vocês façam a leitura e entendam melhor cada um dela, até porque fica chato eu ficar contando todas, isso acaba soando como spoiler e pode até desanimar algumas pessoas ao conferir a história dessas mulheres guerreiras.

A escrita de Lilian Farias é muito boa, mas para algumas pessoas pode acabar sendo meio complicada, digo isso porque os capítulos são alternados por perspectivas diferentes e não é avisado como temos o costume, só fazendo a leitura dele que conseguimos distinguir quais das personagens está sendo narrada, mas esse fator também é um ponto positivo, pois a autora consegue mudar a narrativa de perspectiva para perspectiva, assim mudando por completo o vocabulário usado.

Uma coisinha que fiquei incomodando com o livro, foi o grande foco das críticas e o grito de socorro que o livro tem. É claro que críticas são sempre bem-vindas, mas em Mulheres Que Não Sabem Chorar eu acho que a Lilian focou muito nas críticas, aprofundou bastante os temas e acabou deixando a história um pouco curta, os diálogos são rápidos, as cenas que tem história para realmente conhecer os personagens secundários são rapidinhas. Devido as minhas expectativas com a obra, eu acabei tendo esse probleminha, mas creio que isso seja muito relativo, pois vi MUITAS pessoas gostando da obra, até a Thaís Cavalcante do Pronome Interrogativo me falou que o livro é muito bom e nossos gostos literários são bem semelhantes. Então fica aí mais um motivo para você ler a obra e tirar suas conclusões.

A capa do livro é muito bonita, adorei as cores que foram usadas, a fonte é muito linda e essa moldura de flores condiz muito com a forma que a autora nomeou cada capítulo. Eu vou deixar uma imagem para vocês, mas cada capítulo tem o nome de uma flor e no final da obra tem um sumário do significado de cada capítulo, assim aproximando e facilitando o compreender do leitor, achei um ponto extremamente positivo e importante, porque não é todo mundo que tem o mesmo conhecimento sobre os temas abordados.

A diagramação é simples, eu encontrei alguns errinhos que não influenciam na história e o tamanho da fonte é muito confortável para uma leitura prazerosa, além disso, a divisão dos capítulos são muito bonitas as cores usadas representa bastante o interior de cada mulher dessa obra. Isso só demonstra como a Lilian Farias realmente preocupou com a publicação da sua obra, assim favorecendo muito o seu trabalho.

Não só eu, mas outras várias pessoas significantes na representatividade LGBTs e feminina como: Adriana Lohanna dos Santos, transexual coordenadora estadual de politicas públicas para a população LGBT da sedhuc/SE, o psicólogo Robertson Ferreira Lins e entre outros também indicam essa obra bem necessária para a nossa sociedade que é muito intolerante a vários assuntos.

Assista a entrevista da Mirela Paes

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