RESENHA: Mestre das Chamas
26 out

RESENHA: Mestre das Chamas

Resenhas

Julia Giarola

Título: Mestre das Chamas
Autor: Joe Hill
Editora: Arqueiro
Gênero: Ficção, Terror
Número de paginas: 592
SKOOB

Adquira aqui: Amazon l Saraiva

Sinopse: Ninguém sabe exatamente como nem onde começou. Uma pandemia global de combustão espontânea está se espalhando como rastilho de pólvora, e nenhuma pessoa está a salvo. Todos os infectados apresentam marcas pretas e douradas na pele e a qualquer momento podem irromper em chamas.
Nos Estados Unidos, uma cidade após outra cai em desgraça. O país está praticamente em ruínas, as autoridades parecem tão atônitas e confusas quanto a população e nada é capaz de controlar o surto.
O caos leva ao surgimento dos impiedosos esquadrões de cremação, patrulhas auto designadas que saem às ruas e florestas para exterminar qualquer um que acreditem ser portador do vírus.
Em meio a esse filme de terror, a enfermeira Harper Grayson é abandonada pelo marido quando começa a apresentar os sintomas da doença e precisa fazer de tudo para proteger a si mesma e ao filho que espera.
Agora, a única pessoa que poderá salvá-la é o Bombeiro – um misterioso estranho capaz de controlar as chamas e que caminha pelas ruas de New Hampshire como um anjo da vingança.
Do aclamado autor de A estrada da noite, este livro é um retrato indelével de um mundo em colapso, uma análise sobre o efeito imprevisível do medo e as escolhas desesperadas que somos capazes de fazer para sobreviver.

Durante uma leitura, são poucos aqueles que são diretamente influenciados pelos fatores que levaram o escritor àquela determinada história e àquele determinado ponto de vista. Porém como escritora posso dizer que escrevemos sobre o que conhecemos e conhecemos o que gostamos, daí somos destinados a criar nossa própria originalidade em meio de histórias habituais, mas também que fujam dos clichês. Em meio de referências familiares e particulares de Julie Andrews, Game of Thrones e Dire Straits, me deixei levar pelas escolhas pessoais do autor e assim Joe Hill manipulou minha leitura, talvez não intencionalmente, com nossas paixões em comum, me fazendo inclinar e aproveitar mais Mestre das Chamas. Essa pequena amostra dos gostos de Hill fez com que seus gostos pessoais transcendessem a trama, me atingindo também pessoalmente. Com isso em mente, tais referências me fizeram olhar para o escritor com outros olhos e, consequentemente sua história, me fazendo perceber também a importância de entender o escritor e suas influências e como essas pesam em seus enredos.

Introduzindo um novo mundo, o prólogo logo cumpre sua função de engajar o leitor. Joe Hill encontrou uma maneira interessante de acompanhar o desenvolvimento de uma epidemia, referida mais tarde como Escama de Dragão que faz com que as pessoas sofram combustões espontâneas. Nossa interação aos acontecimentos é passada pelos olhos de Harper, uma enfermeira que se provou a protagonista perfeita para se acompanhar nesta crise. Juntamente ao desenrolar dos acontecimentos, Hill tomou seu tempo para realmente desenvolver a personagem principal antes de fazer qualquer coisa com a história. A decisão inteligente ajuda o leitor a realmente acompanhar bem o enredo, além de ao mesmo tempo criar novas camadas para os personagens introduzidos. Isso, além de mostrar a incrível atenção à respectivas personalidades, também aumenta a tensão, fazendo com que o livro seja um ótimo terror/suspense, já que o perigo que é infletido em Harper, agora é muito mais agoniante porque conhecemos e nos importamos com a personagem.

“Para muita gente, a ideia de ser afastado de quem se ama assusta mais do que a doença. Ninguém quer morrer sozinho.” – Página 17

Outro ponto que também chamou atenção no primeiro ato foi o desenvolvimento da evolução na personagem de Harper. Eu não esperava que o livro tocasse tanto no tema “relacionamento”, principalmente como a principal maneira de evoluir a protagonista. Assuntos complexos tais como a submissão se provaram essenciais ao estabelecer a próxima fase que a enfermeira deveria seguir, se tornando então, mais independente. Como se isso não bastasse, Hill ainda estrutura algumas de suas cenas de conclusão de ato como uma representação metafórica de tudo que aconteceu até agora (a evolução), e isso foi brilhante de se ler.

“Fora Jakob, quem fizera aquilo com ela, quem cravara sua seringa filosófica na sua vida e tentara sugar dela toda a simples felicidade. Em certo sentido, ele vinha tentando matá-la havia muitos anos.” – Página 85

Ao estar com sua protagonista pronta para uma próxima etapa da história, Joe Hill introduz mais um tema intrigante sobre serenidade e o conceito do “porto seguro”. A maneira como o livro questiona nossa capacidade de criar uma nova sociedade do zero é sutil, porém muito eficaz ao mostrar como sempre voltamos à burocracia, independente da situação. Essa construção de um culto e, talvez até de uma nova sociedade é uma questão interessante para analisar melhor nossa incapacidade de harmonia já que de um jeito ou de outro essa “nova sociedade” irá crescer e, em breve, começará a criar novas desavenças.

“A humanidade é um germe que prospera bem na fronteira da catástrofe.” – Página 262

Essa dualidade humana, porém, não para por aí, já que o próprio aspecto da ficção paranormal presente no livro serve como uma metáfora que separa esses dois extremos da sociedade. A escolha de adotar todas as partes de se mesmo, mas ainda usá-las para o bem é um exemplo perfeito dessa simbologia, que é bem feito e por isso não te distrai hora nenhuma da história envolvente e viciante.

“Existe algo terrivelmente injusto no fato de morrer no meio de uma boa história, antes de ter a oportunidade de ver como tudo acaba (…) A morte é sempre dureza para os viciados em narrativas.” – Página 30

Como todo livro da Arqueiro, a qualidade é impecável, apesar de ser uma trama muito longa. Porém isso não será um empecilho para aqueles que tiverem procurando uma história sofisticada, intrigante e bem escrita. Mestre das Chamas tem um pouco de tudo, e por isso acho que irá agradar todos aqueles que também são “viciados em narrativas”.

Leia também

Comentários