CRÍTICA – Manifesto
02 nov

CRÍTICA – Manifesto

Filmes

Julia Giarola

Filme: Manifesto
Título original: Manifesto
Data de lançamento: 26 de outubro de 2017
Duração: 1h 38min
Direção: Julian Rosefeldt
Gênero: DramaExperimental
Nacionalidade: Alemanha, Austrália

Sinopse: Os históricos manifestos de arte podem ser aplicados à sociedade contemporânea? É isso o que Cate Blanchett tenta responder ao explorar os componentes performáticos e o significado político de declarações artísticas e inovadoras do século XX, que vão dos futuristas e dadaístas ao Pop Art, passando por Fluxus, Lars von Trier e Jim Jarmusch.

Assim como o filme, sinto que é apropriado iniciar essa resenha com a definição de “manifesto“. Este é um gênero textual que consiste numa espécie de declaração formal, persuasiva e pública para a transmissão de opiniões, decisões, intenções e ideias. Normalmente de cunho político, um manifesto tem como objetivo principal expor determinado ponto de vista publicamente ou mesmo para um indivíduo ou grupo de pessoas (fonte). Com isso em mente, voltamos ao filme que encorpora diversas dessas dissertações em um conceito definido: a arte. Beirando a metalinguagem assim como a pretensão intencional, Cate Blanchett lidera uma série de monólogos que transformam o filme em uma verdadeira experiência.

Abstraindo-se do cinema experimental que vem se expandindo nos últimos anos, Manifesto explora, de maneira geral, o movimento artístico em nossa atualidade capitalista e política. Sem nenhum enredo, o filme ousa a expor apenas uma série de monólogos que devem ser apreciados como uma arte visual e estudo de personagem. De certo modo, diretor Julian Rosefeldt evoca a revolta na audiência, essa revolta que é então exposta com tanto cuidado na tela. Com um leve toque de humor, Rosefeldt desconstrói suas próprias cenas de maneira a tirar a pretensão dos discursos solitários que apresenta, em vez disso mostrando a ironia em contraste com as normas criadas por essas dissertações, validando sua credibilidade como uma opinião individual.

Neste período de mudança, o papel do artista só pode ser o do revolucionário

É extremamente importante entender este aspecto do filme afim de aproveitá-lo. As decisões ousadas do diretor estão ali exposta, nuas e cruas para profunda interpretação. Ao iniciar excitando uma sensação de alerta na audiência, Manifesto mostra delicadamente o perigo de situações simples, o perigo do capitalismo. E assim, seguimos com uma sequência de cenários, onde o diretor utiliza o ambiente como um detalhe extra para definir as personas coordenadas por Cate Blanchett, afim de mostrar seus nichos naturais. Isso se provou importante durante o longa que escolhe com cuidado seus momentos de silêncio e seus momentos de exaltação. O contraste entre esse silêncio e cada um dos manifestos em si, mostrou a desenvoltura de alguém que passa seu tempo dentro da própria cabeça, o desenvolvimento de ideias e conceitos sobre as coisas que as rodeiam – contraste entre a arte e o mundano. Com um incrível trabalho de câmera e fotografia, Rosefeldt gerencia cada toque emocional encaixando-se perfeitamente com cada monólogo.

Mas quando se resume o filme, é tudo sobre Cate Blanchett, que realmente embarcou no projeto que deve ser o sonho de qualquer ator. Em uma introdução que convida a audiência nesta viagem através do talento da atriz, sua tarefa é  difícil ao ser o centro de um filme totalmente apoiado na arte performática. Blanchett, porém, é cuidadosa ao separar cada voz, cada olhar, cada movimento, além de também diferenciar sua presença dentro do filme e sua influência ao quebrar a quarta parede. Assim como Meryl Streep em Angels in America (2003), Blanchett se deixa levar por cada característica única das personas que encorpora, aumentando significantemente o sentido amplo do longa.

Manifesto é um estudo de personagem, já que celebra a individualidade das diversas opiniões em determinado assunto, neste caso a arte. O filme não tenta te convencer a seguir nenhum desses pontos de vistas que são expostos, querendo apenas mostrar essa divergência usando também tons de ironia da realidade indutiva e manipuladora, além de oferecer filosofias pessoais e conteúdo poderoso que, juntamente a todos os elementos que o audiovisual tem a sua disposição se torna uma jornada emocional, que pede a atenção do público para existir. E por isso o longa não é para distrair ou relaxar, mas sim causar o inquietamento característico da arte expressiva.

Nossa nota é:

Assista ao trailer:

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