CRÍTICA – Jogo Perigoso
03 out

CRÍTICA – Jogo Perigoso

Filmes

Julia Giarola

Filme: Jogo Perigoso
Título original: Gerald’s Game
Data de lançamento: 29 de setembro de 2017
Duração: 1h 43min
Direção: Mike Flanagan
Gênero: Suspense, Drama, Terror
Nacionalidade: EUA

Sinopse: Jessie e o marido Gerald viajam para uma casa de campo para aproveitar um momento romântico, que envolve um jogo, a princípio, inofensivo. Até que ela é algemada na cama e de repente tudo se transforma numa luta angustiante pela sobrevivência.

Muitas das críticas negativas direcionadas ao filme It: A Coisa (confira nossa crítica aqui) deste ano se baseavam no gênero terror, alegando não ser um verdadeiro filme de terror por não apresentar sustos o suficiente. Porém a origem dessas críticas são embasadas em um realidade triste que seguiu a direção grotesca que o terror tomou durante alguns anos, se preocupando apenas com os sustos que dariam na audiência sem dedicar tempo ao próprio desenvolvimento da história. Alfred Hitchcock, o rei do suspense/terror é o grande exemplo que prova que o gênero não se restringe ao mero susto (mesmo podendo fazer parte dos filmes), explorando muito o aspecto da surpresa e tensão de seu público. Sim, um filme de terror pode abordar situações aterrorizantes, agoniantes ou até mesmo psicologicamente desafiadoras, chegando, então, em Stephen King que também prova isso brilhantemente em suas diversas obras, estabelecendo um tema para cada uma. Jogo Perigoso é mais uma adaptação do autor best-seller, e com certeza uma das melhores já feitas até hoje (confira 10 melhores adaptações de Stephen King).

Explorando a narração visual, Mike Flanagan, mostra ser um diretor extremamente atencioso aos detalhes e à história, deixando dicas durante todo o primeiro ato sobre o que será essencial, porém sem entregar ou estragar o desenvolvimento do enredo. Não existe tempo desperdiçado já que toda cena tem um propósito (e uma interpretação) dentro do contexto mais amplo. O exemplo mais claro que podemos notar logo de primeira é o retrocesso às necessidades básicas utilizando o cachorro como um reflexo desse primitivismo. Ao recorrer à algumas cenas grotescas e gráficas, tanto a protagonista quanto a audiência é deparada com uma realidade de nossa natureza, um impacto que com certeza é arrastado durante todo o filme.

A premissa do filme é engraçada até não ser mais, já que lida com assuntos obscuros ao focar no estudo de personagem, onde a protagonista, Jessie, tem que lidar com consequências ao se encontrar em uma situação incrivelmente delicada. A consciência de Jessie, interpretada brilhantemente por Carla Gugino, faz um papel importante no desenvolvimento do filme, permitindo que a história siga em frente sem muito esforço. As vozes em sua cabeça demonstram sua dissociação quebrando a barreira que ela mesmo construiu para ignorar seus pensamentos durante os anos. A metáfora é perfeita para o crescimento da personagem que está presa em suas situações.

Outro tema explorado neste filme cheio de camadas é a submissão e até onde ela irá afetar uma pessoa, esta que pode carregá-la ao longo de toda a vida. Jogo Perigos mostrou à 50 Tons de Cinza que o assunto não precisa ser ridicularizado ao ser exposto, de maneira a tratar o assunto com a delicadeza e sofisticação que merece. É uma história sobre o peso das relações e porque o entendimento desta “ecologia”, poderá levar ao entendimento da pessoa em si e suas motivações.

“A questão, Jessie, é que você se casou com a única dinâmica que conhecia. Você era uma garota, ele era um homem.”

A negação ajuda o filme a não seguir uma direção melodramática, servindo como um anti-melodrama. Jogo Perigo apresenta sim aspectos de drama, mas graças à direção, evita de cair no abismo da manipulação descarada de emoções (como A Garota no Trem). Ao em vez disso é uma jornada para jogar o segredo num posso e como esse segredo é revelado, pois tudo que não é mostrado, também apresenta uma importância no meio do audiovisual.

“Tudo isso é você. Problema, pânico, negação, esperando que, se olhar para o lado, tudo desapareça magicamente.”

Um ponto imprevisível na trama, simplesmente deu calafrios. Modificando o estilo do filme por alguns segundos, resultou em uma terceira e nova direção que realmente impressionou, uma que se provou importante na conclusão satisfatória da história.

Percebo que os filmes que estão sendo lançados pela Netflix, apesar de estarem aumentando cada vez mais sua qualidade, ainda faltam um estilo próprio (na maioria das vezes), algo que, mesmo não sendo um defeito em si, acaba prejudicando a resistência dessas produções ao teste do tempo, já que um estilo marcante consegue prender muito mais facilmente a mente das pessoas. Jogo Perigo, porém é um filme excelente que merece a atenção e admiração de todos que estiverem preparados para um psychological thriller intrigante e/ou seja fã de Stephen King.

Nossa nota é:

Assista ao trailer:

Leia também

Comentários