CRÍTICA – It: A Coisa
15 set

CRÍTICA – It: A Coisa

Filmes

Julia Giarola

Filme: It: A Coisa
Título original: It
Data de lançamento: 7 de setembro de 2017
Duração: 2h 15min
Direção: Andy Muschietti
Gênero: TerrorSuspense
Nacionalidade: EUA

Sinopse: Um grupo de sete adolescentes de Derry, uma cidade no Maine, formam o auto-intitulado “Losers Club” – o clube dos perdedores. A pacata rotina da cidade é abalada quando crianças começam a desaparecer e tudo o que pode ser encontrado delas são partes de seus corpos. Logo, os integrantes do “Losers Club” acabam ficando face a face com o responsável pelos crimes: o palhaço Pennywise.

Stephen King, em uma entrevista sobre seu livro It, falou que queria encorporar todos os monstros em uma só história e isso ele fez, em um livro sobre medo, mas acima de tudo sobre companheirismo e amizade. O sucesso do livro de 1986 foi tanto que logo Hollywood cravou suas garras na trama sobre o grupo de amigos que é perseguido por uma criatura se incorporando em seus respectivos medos e assim se fez o telefilme de duas partes lançado em 1990. Mesmo ainda gostando da versão dos anos 90, It: A Coisa de 2017 consegue representar muito mais a obra de King, explorando aspectos do seu estilo de escrita e de seu próprio enredo.

O filme começa estabelecendo personagens e relacionamentos como nenhum outro do gênero. Com a excelente decisão de uma classificação indicativa mais alta, It: A coisa explora temas maduros sobre a realidade dos personagens que representam tão bem determinada época da vida. Então agora com a permissão de um enredo mais maduro, as interações estabelecidas são muito mais realista, das piadas e palavrões às intrigas e discussões. Não apenas isso, mas o longa decide ir um pouco mais além reconhecendo a experimentação com a sexualidade de uma maneira sofisticada e complexa, pontuando bem a transição dos personagens à vida adulta.

Ainda mais além, nenhum filme dessa magnitude nunca representou uma violência tão gráfica contra crianças. Porém, It: A Coisa não apenas mostra isso, como também a incorpora em sua arte utilizando, dessa maneira, um interessante conceito sobre ações e consequências. Isso dá certo no filme, pois essa violência é filmada artisticamente e não é glorificada, sendo então uma ferramenta que aumenta brilhantemente o perigo das situações da trama, aumentando também a tensão e o interesse da audiência. É ação e consequência.

O roteiro aproveita as brechas da história de King para realmente explorar o aspecto do ritual de passagem, um conceito que representa a transição da inocência para a vida adulta, preparando a história para sua segunda parte. Podemos observar isso na maneira que cada personagem apresenta uma particularidade frágil, sendo que a jornada os obriga a fortalecer, a amadurecer. Este tempo que It: A Coisa leva para aprofundar e desenvolver os personagens e suas dinâmicas, além de dar ao filme um ar de originalidade, também alivia a sequência que, assim, terá mais tempo para explorar outros aspectos dos integrantes do “Losers Club” e as consequências dos eventos deste filme.

O filme levanta questões importantes sobre medo e individualidade. Por mais que este promova o companheirismo e a força do grupo unido, uma camada a mais é adicionada mostrando a independência das pessoas e o que isso significa para suas vidas. Ao desenrolar dos acontecimentos, os protagonistas percebem que eles têm que se salvar, pois ninguém mais fará isso. Agora, em relação ao tema “medo”, It: A Coisa também consegue distinguir bem as definições de pânico e terror; a diferença entre assustador e perturbante. Aplicando isso não apenas no enredo, o filme em si demonstra perfeitamente essa distinção em seu gênero. Sendo classificado como terror, ainda há muitas direções que o filme pode tomar. Dessa maneira, este não apresenta muitas cenas de susto como muitos esperam. Não, em vez disso decide chocar e perturbar a audiência que não está acostumada em assistir brutalidade contra crianças. Visualmente o longa promove o próprio medo explorado na história. Na história o medo é representado visualmente.

O diretor optou por direções interessantes em relação às cenas, tanto esteticamente quanto emocionalmente, o que se provou mais que eficaz ao corresponder com o clima da história. Evocando emoções diferentes do que estamos esperando, Andy Muschietti conseguiu construir cenas icônicas, sem comprometer o material. Acompanhada por uma marcante trilha sonora e outros aspectos técnicos, a direção do filme é mais que adequada para o excelente roteiro.

Em relação ao elenco, é inevitável sentir um pesar quando pensamos que esses atores não poderão voltar para interpretar suas respectivas versões adultas, pois fazem um trabalho brilhante. As atuações atingem um nível sofisticado traçando uma barreira fina entre maturidade e inocência. Os atores mirim interpretam personagens que parecem reais, assim como se interagem em seus relacionamentos. Os destaques são Finn Wolfhard como Richie e Sophia Lillis como Beverly (apesar de Jaeden Lieberher também fazer um excepcional trabelho como Bill). Beverly é, sem dúvida alguma, a personagem mais sofisticada e complexa do filme, algo que a atriz não teve dificuldade em explorar. Além de encontrar o tom perfeito para cada fala, ela ainda atua com os olhos, e isso é difícil de se encontrar até mesmo em uma ator veterano. Já Finn Wolfhard se mostrou um ator extremamente versátil, diferenciando muito bem de seu personagem em Stranger Things, sendo o alivio cômico da história. Os atores mirins deixam muitos atores de Hollywood no chinelo!

O único ponto mais baixo do filme (não ruim), é Pennywise, que não recebe tanto foco quantos as crianças. Bill Skarsgård faz um bom trabalho, mas não conseguiu se destacar como os protagonistas. Algo sobre o visual do palhaço deixou o aspecto assustador cansativo, o que pesou no aspecto “terror” do filme. Fora isso, It: A Coisa é quase perfeito. Agora é só torcer e esperar para uma segunda parte tão boa quanto essa primeira, algo que não será fácil de fazer!

Nossa nota é:

Assista ao trailer:

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