CRÍTICA – Hereditário
14 jun

CRÍTICA – Hereditário

Filmes

Julia Giarola

Filme: Hereditário
Título original: Hereditary
Data de lançamento: 21 de junho de 2018 
Duração: 2h 06min
Direção: Ari Aster
Gênero: TerrorDrama
Nacionalidade: EUA

Sinopse: Após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta adolescente, Charlie, por quem ela sempre manteve uma fascinação não usual. Com um crescente terror tomando conta da casa, a família explora lugares mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram.

A mistura entre simbolismo e histórias é algo que muitos cineastas vêm tentando balancear. Encontrar o toque perfeito para cada um de maneira a criar algo harmonioso o suficiente para funcionar em múltiplos níveis é uma característica que tem se entranhado na nova era do terror, onde os filmes do gênero chamam cada vez mais responsabilidade para quebrar a barreira entre o artístico e o comercial. Espelhando no agravamento gradual de eventos de clássico tais como O Bebê de Rosemary (1968) e O Homem de Palha (1973), Hereditário funciona tanto como um enredo assustador quanto uma metáfora substancial, mostrando mais uma vez como a construção cuidadosa de novos cineastas estão ajudando a elevar o gênero cinematográfico.

Já no primeiro ato, Hereditário te desafia a prestar toda a atenção para simplesmente entender o surpreendente acontecimento que consegue mudar completamente qualquer percepção que você já tinha do filme, assim como prova que todas as direções para a história que você designou em sua cabeça estão erradas. Pegando a audiência de surpresa, o longa intensifica a curiosidade por trás do pesado drama familiar que se mescla com os melhores elementos de clássicos do terror. Explorando o conflito natural do ambiente compartilhado pela família problemática, as cenas importantes não gritam por atenção, simbolizando, então, a sutileza do medo que procura construir.

O estilo criado pelo novata Ari Aster utiliza este clima para agravar o medo. O filme se torna cada vez mais tenso; cada vez mais arrepiante, traçando uma linha imaginária entre o drama familiar e o terror paranormal que caracteriza tão bem o longa. Os riscos são elevados graças a esta atenção à sub-trama dos conflitos da família que, além de construir lentamente uma conexão entre os personagens, ajudam a estabelecer o simbolismo que esta presente durante as duas horas de filme. Hereditário funciona muito bem em vários níveis diferentes: funciona como uma história isolada, como uma metáfora bem construída e como ambos, combinando perfeitamente os elementos do horror para dizer algo sobre escolhas e tragédias.

O filme brinca com a noção de “perder a cabeça”, ambos literalmente e simbolicamente, dizendo algo sobre doença mental. Mas o tema explorado pelo longa não para aí. Ao traçar a relação entre os acontecimentos do filme, diálogos com sub-textos e direção magistral, Hereditário abre uma discussão sobre a tragédia de nascer sem escolhas, sempre presos à família, à linha hereditária, de certa maneira, ou presos em um simples cenário miniatura. Isto é muito importante para a história como uma propriedade artística, colocando tudo na tela por algum motivo. As miniaturas administradas pela personagem de Toni Collete são, por exemplo, uma maneira de estabelecer os traumas familiares da protagonista e como ela lida com isso, revisando os eventos traumáticos a partir de uma visão neutra que tenta criar. Este é apenas um elemento entre os vários aspectos interpretativos e carregados – da melhor maneira possível – do filme.

Não tem como falar sobre  Hereditário sem mencionar o poder de Toni Collete durante as duas horas de tensão. Carregando o peso emocional da história, a atriz não apenas domina suas cenas, mas estabelece uma presença essencial para a trama funcionar tão bem como funciona. Sem a poderosa atuação, o longa talvez não conseguisse atingir tais níveis mencionados anteriormente, já que Collete traz consigo o pavor e a insanidade necessária para tudo ser acreditado cegamente pela audiência. Se acreditamos, iremos sentir medo; e é isso que acontece.

Surpreendentemente podendo apelar para públicos maiores, este pequeno filme, que vêm sendo tão aclamado desde sua estreia no Festival de Sundance, consegue trazer todos os elementos que formam um excelente filme de terror. Com as presenças notórias do estreante Ari Aster – por trás das câmeras – e da veterana Toni Collete – nas telas – , Hereditário com certeza é um dos filmes de 2018 que não se deve perder!

Nossa nota é:

Assista ao trailer:

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