Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 5#
26 dez

Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 5#

Coluna

Julia Giarola

Todo passo é importante na trajetória de um artista. Estudando a jornada de seu trabalho, conseguimos analisar claramente não apenas suas influências, mas também o peso de suas características pessoais em suas obras. Como a maioria dos cineastas, Marcos DeBrito começou muito bem explorando o cinema experimental em seus curtas, como vimos nas outras matérias. Experimentando com temas e técnicas, o trabalho do roteirista/diretor tomou uma direção cada vez mais voltada para o terror característico de seus projetos atuais. Isso fica claro no último curta-metragem lançado por DeBrito que, apesar de ainda não ter sido liberado para o público geral ainda, já está deixando sua marca nos festivais. Como curta, Apóstolos participou de 3 dos principais festivais de gênero no mundo: SITGES, na Espanha, MÓRBIDO, no México e SCREAMFEST nos EUA. Aqui no Brasil ganhou prêmio de Melhor Filme, Roteiro e Escolha do Público no Festival Boca do Inferno. Como longa, estreou em festivais agora em Goiânia, no TRASH.

“Esse curta faz parte de um longa-metragem chamado Histórias Estranhas, que estreará em breve nos cinemas ou meios digitais. Na época eram 13 segmentos, mas alguns saíram para dar uma dinâmica melhor como resultado comercial. Eu havia sido sorteado o número 12 e tive que criar algo relacionado ao número. Daí que nasceu o Apóstolos. Eu estou num momento de pesquisas para um novo romance, que aborda a questão sacro-satânica do comportamento em sociedade, e tive que ler muita coisa religiosa e apócrifa. Apóstolos é uma história de obsessão, contada através de metáforas bíblicas.” – Marcos DeBrito

Como nem o curta-metragem nem o longa do qual faz parte foram liberadas ainda fora dos festivais, esta matéria irá conter apenas o trailer de Apóstolos. Confira:

Explorando um conteúdo religioso, Apóstolos não deixa passar de lado as referências que vêm com o território. Entre influências e pesquisas, o quesito visual é de extrema importância nessa história que beneficia do clima pesado oferecido pela religião. Além disso, o curta utiliza muito do provável conhecimento prévio do público, deixando esta insinuação mais obscura como um segredo/conhecimento que todos compartilham.

“A Bíblia é a principal inspiração. Os elementos que uso estão lá em seus livros. Mesmo que a história não tenha pretensão de ser algo bíblico, as referências são todas relacionadas à traição de Judas. Ele sempre vai a uma boate chamada Campo do Oleiro, que é o nome do terreno que Judas comprou com as 30 moedas que recebeu após trair Jesus. Esse é o mesmo valor para entrar no local. Os Apóstolos também foram retratados de acordo com suas principais características no livro sagrado. Além dos textos religiosos, o quadro A Última Ceia, do Davinci, foi o mote principal para a história.” – Marcos DeBrito

O toque experimental, apesar de evoluir, não é deixado de lado aqui. Com um visual pesado e ambiente sombrio, o assunto controverso utiliza de figuras religiosas de maneira a desconstruir a visão suportada pelos fanáticos, balanceando bem uma perspectiva sem promover o desrespeito com a própria religião. Em vez disso, esse novo ponto de vista é a maneira perfeita de pesar ainda mais o elemento horror da história já que as constantes reinterpretações desses aspectos religiosos dizem muito sobre a própria religião e o que ela deixa aberto.

“Eu sabia que se eu revelasse o teor religioso desde o início, algumas pessoas se sentiriam ofendidas de imediato e não prestariam atenção a história que eu queria narrar. Contar a história de um homem sem cabeça, que podia se tornar quem ele quisesse ao pegar uma de sua coleção, me deu o gancho para explorar essa questão da obsessão no filme. O homem sem cabeça queria Judas a qualquer custo. Mas ele só consegue quando usa algo que Judas também queria. O baque da questão religiosa vem no plano final. Só ali que as pessoas entendem o motivo de tudo. Alguns veem o filme como sendo sobre um serial killer sobrenatural, outros como uma vingança de Jesus, um tanto carniceiro. Mas garanto que são apenas simbologias. No entanto, aqui no Brasil, ele não está tendo uma carreira tão boa. Acredito que é justamente por sermos um país muito religioso. As referências bíblicas funcionam como algo a mais para os atentos. Mas não são essenciais para a compreensão da história. O plano final é muito forte. Muito simbólico. Como a cruz invertida do O.D.” – Marcos DeBrito

Agora com um gênero característico mais estabelecido, DeBrito tem a liberdade de explorar o que faz do terror tão fascinante. Muita da tensão criada vem da dramatização que deve ser explorada pela direção. A atenção aos detalhes tais como um ritual de preparo aumenta o suspense agonizante, já que o conceito é revelado em seu próprio tempo.

“Eu queria uma progressão crescente de eventos e uma grande revelação no final. E por causa do conteúdo controverso, não queria ser “agressivo” na parte estética. A ideia foi iniciar com enquadramentos bonitos em câmera lenta, junto a música no estilo erudita, para acalmar o espectador e, de repente, apresentá-lo o estranho. Eu queria prender o público pelo esmero técnico e ganhá-lo de vez quando surge o homem sem cabeça caminhando.” – Marcos DeBrito

O terror, agora como um gênero de muita credibilidade na indústria graças à predecessores como o Drácula de Bram Stoker (1992), tem muito o que beneficiar com os aspectos técnicos que ajudam à criar o clima necessário para a história. Apóstolos não é diferente, explorando a incrível fotografia e trilha sonora penetrante, ambos que contribuem imensamente com o produto final. Aumentando a familiaridade de imagens, DeBrito evoca emoções específicas do público, como o choque, utilizando estes aspectos.

“O plano final é uma livre inspiração da Santa Ceia, do Davinci. Os apóstolos estão dispostos na mesma ordem do quadro e tentamos fazer o cenário mais preciso possível, dentro do que tínhamos. Para funcionar, a casa do personagem principal não podia parecer moderna. Fomos atrás de algo rústico e o produtor encontrou um hotel em forma de castelo no interior do RJ. Fechamos o local só pra equipe durante uma semana. A decoração do local ajudou bastante na ambientação. A fotografia também foi pensada para passar sensações. O azul na Ceia o avermelhado no quarto, as diferentes cores na boate… Podemos influenciar sensações com pequenas nuanças na imagem e no som. Desde o início quis nortear essas emoções com a estética.”

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