Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 4#
11 dez

Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 4#

Coluna

Julia Giarola

Entre muitos processos da produção, artistas que se aventuram com o cinema sempre irão encontrar durante o caminho algumas dificuldades nesta indústria instável. Em meio de dificuldades e demandas, além de adaptável o cineasta tem que mostrar também um raciocínio lógico para solucionar os imprevistos encontrados durante o desenvolvimento do projeto, afim de entregar o melhor produto possível. Acima de tudo, porém, há sempre a necessidade dos desafios, se colocando em novas encruzilhadas para amadurecimento e aprendizado. Com isso em mente, introduzimos hoje o curta-metragem O.D. Overdose Digital, dando continuidade ao nosso projeto em parceria com Marcos DeBrito.

O curta-metragem de 2007 segue a perversão de um traficante de drogas que é posta em prática quando um viciado o procura para saciar sua dependência. Ele foi premiado e exibido em diversos festivais nacionais e internacionais. Eleito Melhor Filme Paulista de 2007 pelo prêmio Fiesp/Sesi de cinema.

Assista ao curta e junte-se a discussão:

Influências são sempre ótimos pontos de apoio para todo artista, estabelecendo desde o começo um estilo próprio. Explorando bem o cinema de autor, conseguimos ver claramente os primeiros passos de Marcos DeBrito nesta direção, onde aspectos marcantes das obras de Darren Aronofsky como a edição em Réquiem Para Um Sonho e o subtexto dos diálogos de Quentin Tarantino são presenças fortes em O.D. Overdose Digital. Aplicando isto com a originalidade da história, o curta consegue se destacar como uma expressão da ultra-violência, bastante abordada no cinema moderno.

“Apesar de ter sido lançado em 2007, o roteiro foi escrito em 2001. Sofreu alterações, principalmente nos diálogos, mas o conceito dos efeitos e da narrativa é o mesmo. Nesse filme é impossível dizer que não há influência do Réquiem Para Um Sonho (…) Ainda carrego influências do Aronofsky hoje em dia. Um roteiro que estou escrevendo agora como longa foi inspirado em Cisne Negro, mas a temática principal é para ser uma nova versão de Fausto (…) E os diálogos do Tarantino precisam ser estudados e ensinados na faculdade. Diálogo não é conversa. É subtexto.”

Além dos toques da cultura pop, o curta realmente apresenta um ritmo muito interessante, onde mais uma vez DeBrito brinca com enquadramento e edição. Como pode ser notado, a câmera segue a história que, nem sempre está no mesmo ambiente, exigindo um trabalho detalhado e minucioso na filmagem e também na edição. A história quase coreografada é dinâmica graças aos aspectos visuais.

“Creio que o O.D. tenha sido meu trabalho mais complicado tecnicamente. Eu estava ‘criando’ uma técnica de filmagem que não saberia se daria certo. Tudo aquilo é uma única câmera sobre um Motion Control. Certamente houve o ensaio, mas não dava pra fazer com a maquinaria porque a diária era absurda. Decidíamos quem seria o líder da ação – ou seja, quem faria primeiro – e editávamos no set a que valia para o outro ator contracenar com o que já havia sido filmado.”

Segue abaixo o Making Of em duas partes do curta, explicando como tudo foi realizado:

Discutindo um pouco mais afundo o subtexto presente no enredo das fotos, DeBrito explora ainda mais o tema do vício que é, primeiramente introduzido da maneira esperada (drogas), mas tomando uma nova direção ao introduzir o aspecto do fetiche, criando um nova perspectiva à temática. A presença do “peculiar” na trama, se desenvolve muito bem no cinema experimental, mas também no cinema de autor, que aparentemente cresce no trabalho do cineasta, que hoje mostra uma preferência à brutalidade em seus projetos, em destaque a carnificina no terror slasher. É interessante reconhecer essa transição aqui, onde saindo do experimental, Marcos implementa a meta-linguagem ao adicionar o snuff  (que consistem em mostrar cenas reais de mortes e/ou assassinatos) em seu enredo, preparando para sua nova influência no gênero aqui no Brasil.

“A questão de trazer a surpresa, reviravolta, quebra de expectativa, é algo que gosto muito de trabalhar. A questão do fetiche das fotos era para o público imaginar algo diferente, sexual. Então ser algo snuff é a surpresa final. E é um filme sobre vício. Seja de droga ou outros elementos.”

Outro aspecto importante na direção é o comando exercido sobre as atuações, seja de um longa ou de um curta-metragem. Apresentando um peso importante à trama, os diálogos sem dúvida alguma foram muito bem interpretados pelos dois atores principais que acrescentam à dinâmica estabelecida pelos enquadramentos. Além disso, a representação do vício em dois extremos separados, dois contrastes se provou muito eficiente ao dar novo significado à história principal: a credibilidade aos elementos da ficção.

“Eu confio muito no Leonardo Miggiorin e no Francisco Gaspar. Não sou muito fã de ficar fazendo leitura. Tudo já está muito claro na minha cabeça sobre como quero. Deixo os atores à vontade para criarem seus personagens e me trazerem coisas que posso, ou não, aceitar. Durante a filmagem em si, falo muito. Gosto de direcionar a intenção de cada um, dar a motivação necessária. Mas cada ator tem seu método. Enquanto para alguns basta pedir a emoção, outros você precisa dar todo o histórico, criar a ambientação, direcionar o emocional… gosto de trabalhar com ambos os tipos.”

Assim como os semblantes residuais da própria trama, outros elementos visuais de O.D. Overdose Digital também contribuem com a ambientação do curta tal como a lâmpada intermitente que ajuda a construir a tensão. Além disso, outros aspectos técnicos mostram o quanto todos os processos da produção são importantes para o produto final, tais como fotografia e trilha sonora. Ambas, sem dúvidas, estão excelentes na história, se misturando bem com todo o resto.

“Isso (lâmpada intermitente) foi acrescentado por questão de patrocinador. Não tinha os diálogos da luz, nem ela piscando. Mas o filme foi incentivado pela AES Eletropaulo e queriam incluir no roteiro o problema de gato de luz que acontece nas comunidades carentes. Mas queriam um sujeito com roupa da empresa tomando choque. Aqui no Brasil temos um sério problema em como inserir produto no filme sem soar ridículo. Propus essa mudança, que melhorava o enredo e contemplava o que pediram. Aceitaram super bem (…) O fotógrafo (Romulo Errico) se formou comigo na FAAP e já tinha feito o Uninverso. Nossa amizade permite que possamos ser sinceros um com o outro sobre o que pode melhorar ou não está dando certo. O Romulo me trouxe várias referências de cores e quadros, principalmente Caravaggio por causa do contraste. Seguimos essa linha nas externas. Já a trilha, fui atrás do André Abujamra, que é um mestre incontestável. Consegui porque ele era fã do Uninverso. Chegou até a compor um música para um CD dele inspirada no filme e me pediu as cenas do filme para o videoclipe. Deixei que ele trabalhasse no conceito que queria pro filme pois sabia que o resultado seria ótimo. Ambos ganharam prêmios nesse filme por suas respectivas funções.”

E como toda ótima história, O.D. Overdose Digital também apresenta um final marcante e surpreendente, que conecta bem todos os elementos anteriores estabelecidos pelos enquadramentos e edição. Como se isso não bastasse, a imagem da cruz formada por elementos da casa ajudam bem a criar a sensação de perigo no qual o próximo personagem está prestes a enfrentar.

“Aquilo precisava estar presente desde o começo, porque o cenário precisava ser construído com ela em mente. Pra quem é mais velho, a referência da cruz é a dobradinha da revista MAD. Uma dobra de imagem que se transforma em outra. Pensei ‘como fazer isso na tela?’. A imagem mais simples e significativa seria uma cruz preta de ponta cabeça, como sinal de mau presságio para o próximo personagem que apareceu na boca de fumo.”

A presença de detalhes é muito notável no trabalho de Marcos DeBrito. Algo importante na arte em geral é o fato do próprio artista não subestimar a audiência hora alguma, confinado que esta é capaz e está disposta a desvendar os significados das entrelinhas. São estes trabalhos que podem ser analisados e dissecados os que geram maior gratificação àqueles que amam explorar novos aspectos e criar novas interpretações de uma visão particular, neste caso do cineasta. É essa contextualidade e subjetividade que está ali para dizer algo sem ser pretensioso.

“Sem ser imprescindível para a compreensão. Tem que funcionar quase que como um ‘easter egg‘. O filme precisa funcionar, independentemente das referências do público. Os que a tiverem, terão uma experiência melhor.”

Confira as fotos das Premiações em Gramado e Paulínia:

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