Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 3#
27 nov

Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 3#

Coluna

Julia Giarola

Por trás de toda arte, encontramos influências e temas. Todo artista tem algo a dizer, nós só precisamos prestar atenção. Em meio de produções sem sentidos e sem significado algum, encontramos os integrantes da resistência lutando para criar algo a ser notado. Com mais uma coluna do nosso projeto em parceria com Marcos DeBrito, é com muito prazer que venho apresentar o curta-metragem em análise essa semana: Uninverso. Esse curta conta a história de Saulo, um deslocado em uma megalópole que está de cabeça para baixo. Ele leva sua rotina sem se adaptar à anormalidade gravitacional. Lançado em 2004, Uninverso foi premiado e exibido em diversos festivais nacionais e internacionais.

Nesta coluna iremos discutir os temas do curta-metragem, assim como os aspectos metafóricos e visuais utilizados por Marcos DeBrito. Abaixo segue Uninverso para vocês assistirem e entrarem na discussão:

Iniciando com o conceito geral, Uninverso consegue explorar muito bem a visão do forasteiro em uma cidade grande, onde está parece ter vida própria controlando a vida de seus cidadãos. Abordando esta relação de dependência com as megalópoles, Marcos DeBrito cria a metáfora perfeita para esse desequilíbrio, literalmente, mostrando o mundo de Saulo de cabeça para baixo, ele que tem que lutar diariamente com as dificuldades do distúrbio da gravidade de seu novo mundo, um mundo no qual não se encaixa.

“Acho que o Uninverso veio como uma observação de uma pessoa que morou em outra cidade e, de repente, se sentiu engolido por uma megalópole. Sou de Florianópolis, já morei em Brasília, interior dos Estados Unidos… mas viver em São Paulo é uma outra experiência. São Paulo que nos comanda. Não somos nós que comandamos a cidade. Temos lugares que não podemos ir, horários que não podemos andar… além de tudo, é uma cidade cinza. Isso, de só concreto, prédios, falta de natureza…, me fez ter a ideia de fazer um filme em preto e branco. E a questão de eu não me sentir no controle da minha vida, me deu a ideia de fazer o filme de cabeça pra baixo.” – Marcos DeBrito

Com abertura do túnel conseguimos identificar a escolha visual do diretor/roteirista que nos mostra um caminho alternativo que nos leva ao Uninverso, a verdadeira entrada neste novo mundo. Conectando a estética e as técnicas com a história, DeBrito contribui com muita eficiência na peculiaridade do ambiente criado, o preto e branco como um exemplo poético dessa decisão.

“É trazer o imprevisível desde o início. Gosto disso. Daí vem o avião de cabeça pra baixo. Eu gosto dessa ideia de passar uma noção de trazer reviravolta no próprio enquadramento. Um artifício narrativo que não precisa de história. Trago algo que todos acham ser o chão, mas ao encontrar o lado de fora, nos vemos jogados no abismo infinito, que será o céu (…) Esse ‘endireitamento’ vem sempre antes da inversão da gravidade. Quando a imagem está de cabeça pra baixo, tudo está aparentemente normal. Quando vemos no modo normal, a gravidade puxa tudo para cima. Foi uma maneira de trabalhar a estética. Trazer essa brincadeira das coisas indo pra cima, como a água.” – Marcos DeBrito

O próprio artifício introduzido pelo cineasta de utilizar a câmera de cabeça pra baixo move a história para frente, sem precisar de muita explicação explícita que atrase o curta. A utilização de todos os recursos do audiovisual é extremamente importante, principalmente quando se trata de o ponto de vista de um determinado personagem, neste caso o protagonista Saulo que se encontra cada vez mais perdido neste mundo, ele que é tão distinto deste ambiente, como mostra a sub-trama da matéria de jornal.

“É um filme metafórico. Então os diálogos tinham que estar de acordo com a proposta. O personagem principal, o Saulo, é um idealista. Vê que as coisas estão erradas e tenta trazer a verdade. O seu amigo, o Cláudio, vive de acordo com a metrópole. Está completamente inserido, portanto não vê nada de estranho e vive de acordo com as aparências, encontrando motivos pra justificar o que está errado, em vez de resolver. O Saulo está se desprendendo da realidade imposta. Mas por ter ideias bem formados, ele consegue se manter. ‘Sobreviver’. Mas o Cláudio, por não ter embasamento real, ao ter a realidade confrontada, perde o equilíbrio. E acaba morrendo por causa disso.” – Marcos DeBrito

Uma fala que representa bem esta ideia da realidade das cidades grandes que afoga as pessoas é “É como um cabelo bem penteado, uma barba bem feita para esconder um câncer intestinal.”onde as pessoas se esforçam para entrar no ritmo, disfarçar os problemas com ideologias, mas não se comunicam com o real problema, sem achar esforços para solucioná-lo. E é exatamente isso que Saulo menciona ao confrontar Cláudio, que então é obrigado a enfrentar sua realidade.

“Ele vai se perdendo (…) como no banheiro, que é o ambiente que mais fala sobre o que o Saulo está enfrentando por dentro. Quando o amigo dele morre, e por causa de algo que ele disse, ele perde o chão. Ele é o único que não está de acordo com a situação da metrópole. Quer melhorar a realidade, em vez de aceitar o que está errado. Mas a morte do amigo, a matéria póstuma do Cláudio sendo um sucesso, o emocional dele cada vez mais comprometido… fazem ele se perder e ser engolido. Visualmente, o Saulo vai para o céu. Morre. Mas a mensagem é justamente essa da adaptação. Ele foi obrigado a viver de acordo com a metrópole, que é mais forte que nós.” – Marcos DeBrito

Entre cenas poéticas como a do enterro, que é muito bonita visualmente, é onde o Saulo perde a força, onde ele largar o lenço para o céu quase como um sinal de sua desistência. Assim como também temos a cena em que ele encontra uma pessoa limpando o sangue no ventilador após o acidente de Cláudio, onde todos agem como se fosse algo normal e apenas Saulo se sente incomodado. Ninguém quer ver o que está errado e está é a beleza da história!

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