Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 2#
13 nov

Terror no Brasil – Especial Marcos DeBrito 2#

Coluna

Julia Giarola

Um importante aspecto para compreender o corpo de trabalho de um artista é ter uma visão de seu começo, explorando aspectos das primeiras expressões, assim como suas influências. Com isso em mente, continuamos nosso projeto em parceria com Marcos DeBrito, iniciando as análises de suas primeiras experiências com audiovisual.

O primeiro projeto que iremos apresentar e analisar é o curta-metragem Video Sobre a Tela (2001). Feito durante o quarto semestre do curso de cinema da FAAP, na aula de Direção Cinematográfica, o curta ganhou o prêmio especial do júri no festival de Gramado daquele ano.

“Era pra ter ficado apenas na faculdade, mas o professor viu potencial e me incentivou a ir atrás de patrocínio para transformá-lo em película. Na época os festivais eram só de 35 ou 16mm. Consegui por uma empresa no Sul que queria ter um filme em Gramado. Felizmente entrou e ganhou um Kikito.” – Marcos DeBrito

Abaixo segue o curta-metragem para vocês assistirem e entrarem na discussão:

O trabalho de um cineasta é sempre achar a melhor maneira de contar determinada história e, explorando os aspectos do cinema experimental, DeBrito mostra a eficácia de seu trabalho, distribuindo os cômodos da casa em diferentes enquadramentos o que criou a ilusão de distanciamento, algo que achei muito importante na história. A distância emocional entre os personagens é essencial para o desfecho desta trama, que aborda algo interessante sobre comunicação.

“Eu acredito que a principal função de um curta é a experimentação. Eu queria encontrar um estilo narrativo próprio, que não fosse apenas contar uma história através da sequência de imagens e sons. Eu queria algo ‘interativo’, algo que a estética tivesse sentido para a história. Disso surgiu a separação das telas, para ilustrar o desencontro do casal e a situação emocional deles, além de construir uma casa, com seus cômodos separados, na tela. Fora isso, eu queria ver como ficaria o contraste de uma película super 8mm em PB com a tecnologia digital da época, que era a miniDV. A partir desse resultado, criei um manifesto chamado Hipertela, que junta a ideia do hipertexto da internet com a tela de cinema. Nos próximos curtas segui esse manifesto, sempre trazendo uma estética exagerada, inspirada no formalismo Russo, para narrar uma história.” – Marcos DeBrito

Além da escolha original da separação das telas, o fato de sobrepor as cenas coloridas sobre uma imagem parada em preto e branco, explora a complexidade do interior de uma casa no subúrbio. Enquanto estamos olhando de fora algo aparentemente em preto e branco, lá dentro vivem pessoas complexas, tão complexas quanto a gente. Um aspecto interessante que explora o “mito do expectador”, onde tudo parece melhor do lado de fora. Questionado sobre a decisão, DeBrito afirma “…tem isso de ‘a casa está lá, parada, como vemos todas’. Mas dentro algo completamente impensável pode estar acontecendo.”

Ao conversar com o cineasta, ele ainda explicou o que está no papel que a personagem abre e se era intencional não dar pra ser lido. Sobre isso ele afirmou “Acho que vem a inexperiência da época. A informação não era importante. Era só o nome de um motel. Mas para dar a sensação plena de não precisar ler, eu precisava cortar a imagem antes de ela terminar de abrir o bilhete. Mas não tínhamos tempo de corte porque o seguinte já era ela chorando com o bilhete aberto. Se fosse no digital, daria pra ler o que estava escrito. Mas o grão do super 8 PB impossibilitou.”

Com muita atenção virada aos blockbusters de Hollywood, muitas vezes o cinema independente fica perdido entre os amantes da arte. Porém a evolução desta está muito dependente destes artistas experimentais que se comprometem ao material, criando novas maneiras de contar histórias visualmente, o que realmente é um desafio. É nosso, trabalho, então, colocar relevância à estes projetos que merecem nossa atenção, principalmente os nacionais e por isso e muitos outro motivos esperamos que continuem seguindo nossa parceria com Marcos DeBrito acompanhando as colunas que estão por vir.

“Cinema independente é feito por apaixonados pela arte. Cinema comercial por apaixonados por dinheiro. O ideal é unir ambos. Fazer algo bom, com coerência, conteúdo, sem esquecer o público.” – Marcos DeBrito

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