Representação LGBT no cinema
06 jun

Representação LGBT no cinema

Coluna

Julia Giarola

Ao discutir a representação da mídia dos variados grupos, especialmente daqueles que consideramos marginalizados, os estereótipos são muitas vezes uma preocupação primordial. Mas às vezes, quebrar um estereótipo não é o suficiente, pois há ainda a preocupação de retratar esses personagens de uma forma positiva e diversificada em sua própria comunidade. Dessa maneira podemos explorar e analisar as maneiras que o entretenimento, e neste caso o cinema resolve abordar o conteúdo LGBT e ainda como lidam com suas caracterizações.

Nos últimos anos podemos ver a crescente competitividade entre cinema e TV, não apenas pela quantidade de conteúdo, mas principalmente qualidade. Há algum tempo as séries decidiram explorar a diversidade colocando em jogo a popularidade das mesmas. Porém a decisão ambiciosa de representar variados grupos foi muito além das expectativas sendo muito bem recebida. Plataformas como a Netflix que agora lançam conteúdos originais o ano todo, encontraram um público enorme que respondem bem à ousadia de suas temáticas estabelecendo então uma normalidade em assuntos tais como homossexualidade e transsexualidade, não deixando ninguém de fora das histórias que estão ali para refletir o mundo real em que vivemos. Séries tais como Orange Is The New Black, Sense 8, Grace and Frankie, Modern Family, entre outras, vieram para acabar de vez com as dúvidas da audiência existente para o assunto.

Hollywood, porém, encara agora uma encruzilhada entre seu antigo e seguro público conservador e a nova audiência descoberta pela televisão.  Muitas controvérsias cercam os estúdios que ainda não encontraram a coragem para se adaptaram a esta nova era. Em vez disso os grandes produtores ou viram suas costas às inovações ou utilizam as temáticas de maneira mínima. Representações positivas da comunidade LGBT ultimamente são apenas encontradas em filmes independentes ou artísticos, aqueles que são feitos como maior propósito premiações como o Oscar, tais como Moonlight (2017), Carol (2016), entre outros.

Mesmo sendo “isca de Oscar”, a importância destes filmes ainda é incontestável de maneira a atrair certa visualidade ao assunto. Estes filmes, porém, ainda não conseguem traçar seus caminhos até o público geral que em sua maioria não acompanha filmes movidos por história. A grande audiência de blockbusters ainda é deixada no escuro em relação a comunidade LGBT devido a ausência de personagens representantes desta. Filmes de super-heróis ou que têm um grande orçamento apresentam uma preocupante deficiência em relação o assunto o que é simplesmente frustrante para o público diverso que também paga para assistir estes filmes.

Muitos estúdios tentam ingressar nestas inovações fazendo grandes anúncios de personagens LGBT em seus filmes, mas que na verdade não são nem mencionados na trama principal. Dois grandes exemplos são A Bela e a Fera (2017) e Power Rangers (2017), que declararam duas personalidades oficialmente gays. Estas alegações, porém foram nada menos que tentativas de atrair o novo público que se decepcionou ao, mais uma vez, presenciar a ausência da temática nos filmes.

Gaston, o personagem elegidamente homossexual, não recebeu nenhum afirmação de sua sexualidade durante o filme em si além da atuação exagerada e estereotípica de Josh Gad. Em Power Rangers o mesmo aconteceu. Antes da estreia do filme, o estúdio fez um grande anúncio sobre a sexualidade da Ranger Amarela. A notícia que Trini seria a primeira personagem oficialmente lésbica em um filme blockbuster com certeza foi uma grande vitória para a comunidade LGBT. Este, porém, não foi o caso, pois mesmo atraindo atenção à situação, o estúdio ainda se recusou a mencionar o fato de maneira relvante no longa. Presente em apenas uma conversa entre os protagonistas, o fato de Trini ser gay não foi confirmado nem mesmo pela própria personagem deixando ambíguo para o público que não estava ciente do anunciado.

Confira nossa crítica de A Bela e a Fera e Power Rangers.

O único filme dos últimos anos que não teve medo de representar uma personagem gay junto a seu real comportamento foi Caça-Fantasmas: Atenda ao Chamado (2016). Jillian Holtzman, a engenheira que roubou todas as cenas do reboot de 2016 assumiu seu personalidade do inicio ao fim flertando constantemente com sua colega Erin, interpretada por Kristen Wiig. Porém, em uma entrevista, o diretor Paul Feig foi questionado sobre o assunto e pareceu confirmá-lo com um “aceno silêncioso e um sorriso”, mas rapidamente seguiu, “Eu odeio ser tímido sobre isso. Mas quando você está lidando com os estúdios e esse tipo de coisa …”.

Além da pressão sobre o próprio diretor, quando Kate Mckinnon que interpretou Holtzman também foi questionada durante uma entrevista, alguém na sala a interrompeu dizendo: “Não vamos responder essa pergunta agora…”. A comediante de Saturday Night Live que é abertamente gay lidou bem com a situação, dizendo que não é adereçado no filme. A entrevista completa pode ser vista abaixo, e a interrupção aos 2:43:

Então mesmo diante um enorme progresso, o estúdio ainda regressou a realização. O filme que mesmo recebendo incomparável ódio da internet, principalmente por ter quatro mulheres como protagonistas, não teve medo de representar uma personagem LGBT, mesmo não podendo oficializar a decisão.

Com certeza a comunidade LGBT tem ainda uma longa caminhada para conquistar sobre o assunto. Sendo necessário a coragem de uma mente criativa dentro de um grande estúdio que com certeza deveria considerar esta nova audiência que representa a verdadeira diversidade do mundo, não apenas em assuntos como a sexualidade, mas também raça, pois devido a globalização a sociedade está se tornando cada vez mais diversificada e este em breve será o público predominante indo aos cinemas.

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