Dicas de ficção científica com Gabriel G. Sampaio
10 ago

Dicas de ficção científica com Gabriel G. Sampaio

Coluna

Victor Tadeu

Ficção científica é um gênero literário que consiste em um público muito específico, as histórias estão sempre visando em trabalhar diante de seres e/ou conceitos ficcionais e/ou imaginário, muitas das vezes relacionados ao futuro, ciência e/ou tecnologia. Muitas das vezes algumas histórias desse ramo acaba abordando as consequências futuras que uma sociedade moderna pode sofrer diante de suas atitudes, decisões e invenções, o que acaba sendo uma possível realidade.

Durante o mês de agosto convidaremos autores nacionais para participar do nosso projeto, na qual, ainda não tem nome — e provavelmente não terá. Essa projeto é quase um desafio, onde o autor tem que indicar cinco livros do gênero que escreve, porém não pode indicar obras de sua autoria. Por isso, eles devem pensar bem em assumir essa responsabilidade, pois provavelmente a equipe do Desencaixados vai escolher uma das indicações para ler e escrever uma resenha.

Sendo o segundo escritor a participar do nosso projeto, hoje estamos convidando Gabriel G. Sampaio autor de Exídium e Exceção Hostil, ambos livros de ficção científica, um publicado pela Editora Coerência em 2017 e o outro é uma HQ com a participação de ilustrador Luiz Gustavo M. Pereira publicado de forma independente. Ele tem a missão de indicar cinco livros de ficção científica para vocês, na qual, foram escolhidos durante exatas 4 horas, notícia confirmada pelo escritor.

Por um lado, Exceção Hostil conta a história de Acira Pereira Sampaio, uma menina que perdeu a mãe em um acidente quando era pequena, mas no orfanato em que viveu sua adolescência acabou criando sua família, na qual, levou para a vida inteira. Porém, uma organização de intolerantes está atacando as minorias no governo em que vive, por isso, ela procura formas para combater o grupo de atacantes e, além disso, tenta defender sua namorada. Para saber mais clique aqui, mas nesse exato momento chegou a hora de saber sobre as indicações de Gabriel. G Sampaio.

“Esta lista é uma seleção pessoal, e pode ser bem diferente da sua, mesmo que você tenha lido exatamente as mesmas obras. Entendo que isso acontece por que a experiência com a literatura é única. Duas pessoas não reagem emocionalmente a uma obra da mesma maneira. Por isso, leia para se divertir e não para debater. Espero que minhas indicações os ajudem a escolher suas próximas braçadas neste magnifico mar de livros do gênero!”, disse Gabriel.

Trilogia Fundação (1951)

Isaac Asimov

Se Star Wars domina o cinema de aventura espacial, Fundação é seu equivalente na literatura de Ficção Científica. O próprio George Luccas (Criador de Star Wars) se inspirou em elementos do livro par criar os cenários da Saga de Darth Vader.

Fundação ganhou todos os maiores prêmios de Ficção Científica e é composto de 6 livros. Os principais são a trilogia: Fundação; Fundação e Império, A segunda Fundação.

Além de ser considerada a obra máxima da Ficção Científica por muitos leitores e estudiosos, é um livro incomum, que não tem um protagonista na forma de personagem.

O Protagonista de Fundação é a organização que dá nome ao livro.

Num futuro distante (cerca de 10 mil anos), a humanidade já dominou toda a galáxia e se dividiu em muitos povos diferentes. A origem da humanidade está esquecida e o governo pertence ao poderoso Império Galáctico. Neste cenário, um cientista, HariSeldon, descobre uma forma de prever o futuro de grandes grupos de pessoas. Daí o problema: Ele prevê que o Império Galáctico irá desmoronar e que a galáxia viverá em caos por 30 mil anos!

A partir deste ponto, mesmo sem muito apoio do governo, Seldon cria a Fundação, que servirá inicialmente de uma grande biblioteca, mas ficará localizada num planeta pequeno e sem importância na borda da Via Láctea.

Toda a história dos 3 livros gira ao redor dos problemas e da sobrevivência desta organização, que em centenas de anos passa a ser o reduto da tecnologia mais avançada da galáxia. O próprio Sheldon fica para traz, pois o livro cobre cerca de mil anos de história desta organização, mas o seu plano fica registrado e seus vídeos secretos continuam a aparecer e guiar os governantes da Fundação. Lógico que as coisas são muito mais complexas do que isso, pois a ciência de Sheldon só pode prever o destino de grandes populações, não ações individuais.

Se você ainda não se convenceu que precisa ler Fundação, dê uma olhada nas críticas do livro. Ele é perfeito!

A trama traz questões políticas, socioeconômicas e tecnológicas de forma simples e divertida. Fala também de questões éticas e morais, sem falar das reviravoltas e incríveis sacadas narrativas do Asimov.

E o palhaço do Mulo?! Que personagem incrível! Eu sequer consigo escrever sobre ele sem me arrepiar e ficar com vontade de reler.

Um Planeta chamado Traição (1993)

Orson Scott Card

Encontrei este livro, por acaso, numa biblioteca que frequentava em 2007, quando tinha acabado de sair da casa dos meus pais e estava com pouco dinheiro. Graças a isso, passei a ler ainda mais do que antes e tive uma surpresa maravilhosa.

Fazem mais de 10 anos que o li, nunca o reli, e ainda o considero uma das obras mais tocantes e divertidas que já conheci. Seu escritor é o renomado Orson Scott Card, escritor de “Ender’s Game” e roteirista do filme “O segredo do Abismo”.

Hoje, lendo outras obras de Scott Card, percebo a habilidade do escritor na arte da contação de histórias. Embora haja muita coisa que eu não goste na série dele que estou lendo, consigo reconhecer sua maestria.

Na história, Lanik Mueller é um dos herdeiros de uma das famílias mais ricas do planeta Traição. O planeta tem esse nome, pois é um tipo de prisão para estas famílias, que foram julgadas traidoras do governo humano (possivelmente galáctico) há milhares de anos.

Cada família possui uma “habilidade especial” proveniente da ciência que seu antepassado original estudava. Por isso Lanik pode se renega facilmente e ocasionalmente surge um novo membro nele.

O livro, que poderia muito bem cair num drama político-social, vai para a aventura, quando Lanik acaba se tornando um escravo e tem que viajar sozinho pelo planeta, e vai conhecendo as outras famílias de Traição, adquirindo também suas habilidades.

Realmente não é bom contar mais do livro, pois tudo a partir daí é maravilhoso e surpreendente. As questões filosóficas, a beleza da narrativa e a jornada de crescimento pessoal deste herói fazem do livro uma obra prima.

Duna (1965)

Frank Herbert

Intrigas, Traições, filosofia e guerrilha são alguns temas abordados por esta magnifica obra que ganhou os maiores prêmios internacionais do gênero da F.C.

Está em terceiro lugar por que marcou bastante o meu gosto pela leitura, na adolescência. Devo ter lido Duna aos 14 anos e depois, novamente, aos 16 ou 17. Eu já conhecia o triste filme de 1984 do diretor David Lynch que adapta esta obra, mas não imaginava como o livro poderia ser superior.

Foi graças a obras como Duna e os livros de Asimov que constituí meu amor pela Ficção Científica.

Duna deveria ter sido adaptado para o cinema pelo excêntrico Alejandro Jodorowsky, mas algo deu errado na produção e seu projeto ousado acabou na gaveta. Existe um ótimo documentário sobre o Duna de Jodorosky, que vale a pena ser visto, se você gostou do livro.

Curiosamente, o livro está sendo adaptado novamente para o cinema por Denis Villeneuve, o Diretor de “A Chegada” e “BladeRunner 2049”, o que me traz grandes esperanças para uma adaptação realmente digna. Então, se você prefere ler antes de ver o filme, eu recomendo que o leia imediatamente.

A trama gira em torno do produto mais valioso do Universo, a Especiaria Melange. Que serve como um alucinógeno que permite aos navegadores levar as naves de um sistema estelar para o outro. O problema é que esse produto é produzido em um único planeta da galáxia – Arrakis, conhecido como DUNA.

Nesse cenário, existe um governo FEUDAL, na qual a família nobre que governa Duna para o Imperador, são os Atraides, (o protagonista é o filho mais jovem do DuqueAtraides, Paul). Depois de um golpe contra o seu controle planetário e a morte de seu pai, o jovem Paul vai embarcar numa aventura, e passar a descobrir que Duna não é apenas um gigantesco planeta deserto, e que ali existe a força necessária para governar todo o universo.

Existem 5 continuações para esta série, mas como eu infelizmente li uma delas fora de ordem, ainda na adolescência, decidi deixá-la para mais tarde. Agora talvez seja o momento de reler o original e dar sequencia à leitura da série.

Empate Técnico: A máquina do Tempo, de H.G. Wells (1895)

Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne (1871)

Estes dois livros são tão importantes para mim que não consigo decidir qual é o melhor. Por isso o motivo do empate. Os dois foram as bases para a minha primeira pesquisa acadêmica, e também o TCC que escrevi para a Faculdade de Letras, em 2006.

Vinte Mil Léguas Submarinas é a mais famosa obra do escritor Francês Julio Verne, que é considerado um dos pais da ficção científica mundial. Foi adaptado para o cinema em 1954 e seu personagem mais famoso, o capitão Nemo apareceu em diversas outras obras – livros,quadrinhos e até no filme “A liga Extraordinária” (2003).

Já “A Máquina do tempo” teve 2 adaptações para o cinema (uma em 1960 e outra em 2002), e é considerado uma obra-prima de Herbert Geoge Wells, que também escreveu “A Guerra dos Mundos”, “O homem invisível” e “A ilha do Dr. Mereau”. Nem preciso dizer que H.G. Wells também é considerado um dos pais da Ficção Científica e contribuiu muito para o gênero que ainda estava nascendo.

Vinte Mil Léguas Submarinas conta sobre a viagem do Professor Aronnax atrás de um monstro marinho que está destruindo navios. Essa viagem o leva a encontrar o capitão Nemo e seu veículo submarino (o Naútilus) que é uma verdadeira maravilha tecnológica para a época. Tanto o Professor quanto o Capitão fazem uma viagem longa e cheia de perigos pelos 7 mares, enfrentando desafios tanto físicos quanto morais. É um livro que marcou muito mais do que uma ou duas gerações e nos faz viajar em uma aventura clássica e bela, por isso, merece ser conhecido.

Por outro lado, A Máquina do Tempo nos leva por um mistério que supera o próprio tempo. O livro é de fácil leitura e tem uma estrutura de relato, feita para causar no leitor a impressão de que é uma história real. Conta a aventura de um misterioso viajante do tempo que volta ao seu presente (final do sec. XIX) para contar a um jornalista sobre os horrores que viveu quando foi visitar um futuro distante, do ano 802 mil ! Posso dizer que nenhum dos dois filmes me fez sentir como o livro, que é apaixonante. Embora eu goste bastante da adaptação de 2002.

Os Despossuídos (1974)

Ursula Kroeber Le Guin

Quando li “Os Despossuídos” (1 ou 2 anos atrás) eu já era um escritor publicado e um leitor muito crítico, que estava experimentando outras literaturas.

Ao ler esta obra, percebi até aonde vão as verdadeiras possibilidades da ficção científica enquanto obra de arte de caráter social, transformadora. Entendi que o Gênero da Ficção Científica pode explorar ideias complexas e polêmicas que nunca foram realmente implantadas na sociedade humana do mundo real, mas que merecem nossa atenção!

O livro, da americana Ursula K. Le, me surpreendeu demais por falar abertamente de anarquia e da complexidade das relações humanas. Não é uma leitura fácil. Ainda mais difícil que o livro anterior que li dela “A mão esquerda da Escuridão”.  Mas valeu cada minuto do esforço.

A história conta sobre um cientista que sai de seu planeta (Anarres, um planeta pobre de recursos, que vive num perfeito regime socialista-anarquista) para ir pesquisar no planeta Urras, que além de muito rico em recursos naturais, é dominado porpovos capitalistasem constante estado de tensão bélica com povos socialistas (como o nosso mundo)!

A história é contada de forma intercalada. Primeiro você vai conhecendo o Planeta Urras, junto com o protagonista e depois vai tendo acesso às lembranças dele sobre o seu planeta natal e sobre as fases de sua vida por lá. Os capítulos que intercalam essas duas fases da vida do protagonista podem ser muito confusos, mas marcam bem os contrastes entre esses dois mundos.

O livro nos surpreende com um protagonista muito livre de preconceitos que está muito além do tempo da publicação do livro (Não vou entrar em detalhes aqui para não dar spoilers). A obra consegue ir muito além da ficção para mim, por promover reflexões profundas sobre o comportamento humano e por fazer críticas tanto às sociedades capitalistas, quanto ao socialismo, tudo sem julgamentos e com uma linguagem bem caprichada.A descrição da epifania do protagonista, em que ele concebe seu maior invento (O comunicador Ansível), é tão linda que precisei ler em voz alta só para dividi-la com minha esposa!

É uma obra que indico apenas para leitores mais experientes. Com certeza, se eu tivesse lido este livro com 15 ou 16 anos, não teria saboreado tanto quanto agora!

Sobre o autor

Gabriel Godinho Sampaio é professor no litoral paulista, especialista em Tradução e amante de Ficção Científica. É mestre de RPG, cinéfilo e ativista da educação. Realiza palestras e formações sobre escrita criativa e já dirigiu um cineclube escolar. Tem seu trabalho influenciado pelos grandes nomes do gênero, como Asimov e H.G. Wells.

Em 2014 lançou, com amigos, “Warwolf: O ritual”, uma aventura sobre os últimos lobisomens. Depois disso, colaborou com o livro “Trindade” (de Luiz Gustavo M. Pereira) e ainda foi selecionado para publicar seus contos em diversas antologias de fantasia e terror.

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