Crítica – Perfect Blue (1997)
16 mar

Crítica – Perfect Blue (1997)

Coluna, Desafio Cinéfilo

Julia Giarola

Continuando nossa nova parceria com o blog Cinema Depois do Café e com o projeto Desafio Cinéfilo, onde nossa equipe do Desencaixados troca indicações de filmes com Vinicius Liessi do blog, fazendo a crítica dos filmes indicados. A terceira indicação é a aclamada animação de 1997, Perfect Blue.

Filme: Perfect Blue
Título original: Perfect Blue
Ano de lançamento: 1997
Duração: 1h 21min
Direção: Satoshi Kon
Gênero: Animação
Nacionalidade: Japão

Sinopse: Mima Kirigoe é uma cantora pop de uma banda CHAM!, mas decide se tornar uma atriz, tendo como primeiro projeto uma série de crime dramática. Muitos de seus fãs ficam chateados com sua decisão e uns deles, obcecado por Mima, começa a perseguí-la e a enviar mensagens a chamando de traidora. Decidida a ignorar tais fatos, ela se preocupa com sua personagem na série que sofrerá um sequestro em um dos episódios. Sem ter noção da possibilidade de ser afetada pela cena, Mima fica traumatizada e começa a não saber distinguir a realidade da ficção. Seu problema maior começa quando seus colegas de trabalho são assassinados e as provas apontam para ela mesma.

Um aterrorizante conto moderno sobre obsessão, dualidade e identidade, esta aclamada animação de Satoshi Kon lançada em 1997, explora elementos do horror psicológico enquanto seguimos a trajetória de Mima em uma caótica transição de sua vida. Mesclando ficção e realidade, sonho e fato, Perfect Blue é a combinação de visuais psicodélicos e uma verdade que está tão próxima às nossas vidas atualmente, graças às redes sociais. Implantada no mundo sombrio do show business, a protagonista agora deve enfrentar aspectos exteriores da fama que conquistou como uma cantora pop, mesmo após abandonar esta carreira para se tornar uma atriz.

Por motivos óbvios, este filme parece ter sido uma inspiração direta para o diretor de Cisne Negro (2010). Pegando emprestado enquadramentos marcantes e temas sublinhados, Darren Aronofsky claramente se aproxima dos temas de Perfect Blue, tais como a obsessão e identidade. Porém, apesar de apresentar esses conceitos aparentemente similares, as duas obras-primas se diferem quando olhamos mais de perto suas perspectivas e respectivas interpretações do assunto.

Enquanto Cisne Negro apresenta uma visão mais interiorizada da dissociação como um fator íntimo da personagem, Perfect Blue apresenta este aspecto mais como algo externo, algo que é influenciado por forças de fora do psico. Mima inicia o filme já com um hábito de separar suas personalidades, distanciando sua vida pessoal de sua vida pública. Vemos isso em claros paralelos e justaposições de imagens e cenas, comparando o mundano e o glamour; a dualidade de sua vida nos holofotes em contraste com suas rotinas fora da persona pública da fama. Tudo isso se torna caótico, porém, após uma crise de identidade causada por uma percepção alheia que começa a se aderir a sua realidade.

Essa dissociação é lidada de maneira diferente no filme de Aronofsky, explorando uma batalha interna quando Nina (Natalie Portman) começa a compartimentar a própria percepção distorcida de si mesma. Em teoria, as diferenças entre os filmes podem não parecer discrepantes, mas na prática podemos ver claramente os distintos resultados da interiorização e exteriorização explorados em cada um, resultando então em dois tipos diferentes de auto-destruição: implosão (vindo de algo interno como em Cisne Negro); e explosão (fator de forças externas exposto em Perfect Blue).

Estas facções externas que causam o caos na vida de Mima podem ser representadas como a constante batalha entre realidade e fantasia; a vida privada e a figura pública. Isto é mostrado muito bem na animação, que começa a impor uma transição invisível entre a vida da protagonista e a série de TV no qual está atuando, explorando a dualidade da representação aos olhos dos outros. É assim, então, que Perfect Blue pergunta o que significa existir sob dois estados separados de “ser”: um debaixo de adoração e expectativas; e outro que constantemente tenta manipular esta visão externa do mundo sobre nossa vidas.

Durante o filme, então, presenciamos Mima encarando sua metamorfose, enquanto batalha para conter sua nova imagem pública. A sexualização gradual da personagem é representada em diversos pontos do filme que tenta mostrar essa transição com cores fortes como o vermelho. Isso tudo, porém, não significa nada até o avatar, nossa versão pública, sair de nosso controle, mostrando uma realidade tão atemporal do filme dos anos 90. Agora, com  a expansão das redes sociais todos nós assistimos e atuamos, todos nós somos a audiência e as celebridades, selecionando cuidadosamente os aspectos que expomos ao mundo e ao mesmo tempo segurando a imagem de alguém em nossas mãos.

Nossa nota é:

Gostaram do projeto Desafio Cinéfilo? Então continue acompanhando nossa colaboração com o blog Cinema Depois do Café e não perca as próximas indicações que serão analisadas por nossa equipe e por Vinicius Liessi. E não se esqueça, se quiser a análise de algum filme específico basta nos desafiar… Deixe seu desafio abaixo!

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