Crítica – Dançando no Escuro (2000)
29 mar

Crítica – Dançando no Escuro (2000)

Coluna, Desafio Cinéfilo

Julia Giarola

Continuando nossa nova parceria com o blog Cinema Depois do Café e com o projeto Desafio Cinéfilo, onde nossa equipe do Desencaixados troca indicações de filmes com Vinicius Liessi do blog, fazendo a crítica dos filmes indicados. A sexta indicação é o trágico filme lançado no ano 2000, Dançando no Escuro.

Filme: Dançando no Escuro
Título original: Dancer in the Dark
Ano de lançamento: 2000
Duração: 2h 19min
Direção: Lars von Trier
Gênero: Comédia Musical, Drama, Policial
Nacionalidade: Dinamarca, EUA

Sinopse: Selma é uma imigrante checa e mãe solteira que trabalha em uma fábrica no interior dos Estados Unidos. Sua salvação é paixão pela música, especialmente os musicais clássicos de Hollywood. Selma está perdendo a visão e seu filho Gene pode sofrer o mesmo destino se ela não conseguir economizar dinheiro suficiente para fazer uma operação.

Vindo do diretor Lars von Trier, Dançando do Escuro é um passo em uma nova direção da vanguarda do cinema. Explorando todos os aspectos da grande tragédia, durante duas horas nós acompanhamos a vida de Selma ser esmigalhada em mil pedaços pelo mundo ao seu redor. Com o único e puro desejo de juntar dinheiro para a operação de seu filho que futuramente poderá perder a visão, somos inserido ao mundo niilista de von Trier que desconstrói tudo que sabemos sobre os musicais exceto seu personagem central. Colocando a protagonista dentro das características dos clássicos musicais norte-americanos, presenciamos o contraste de seu otimismo com o mundo oblíquo ao seu redor.

A cena de abertura já nos conta tudo que devemos saber para conseguir enfrentar as próximas horas, explorando o desconforto da câmera inquieta e as constantes críticas jogadas na direção da inocente e alegre protagonista. A instabilidade dos enquadramentos representando a instabilidade da história e sua trajetória emocional serve como uma aviso para qualquer um que quiser seguir nessa jornada de puro desespero e agonia. Dançando no Escuro não segue os padrões de tramas convencionais, ignorando a responsabilidade de ensinar alguma coisa à Selma durante a história. Não, em vez disso, o longa explora o intenso melodrama que tenta analisar como a personagem irá lidar com as inúmeras tragédias.

As duas cenas musicais que realmente acontecem no filme – onde os personagens realmente estão cantando – é a do começo do filme e a do final. Em uma jornada poética, onde a realidade é dividida e refletida entre esses dois extremos, Dançando no Escuro apresenta um conceito sombrio onde apenas nosso início e nosso fim são reais, abrindo a possibilidade de uma vida fantasiosa, o escapismo que permite uma dissociação onde tudo pode e deve estar do jeito que sonhamos. Então durante todo o filme nós presenciamos este escape da realidade com transições para os números musicais anticlimáticos como ferramente deste escapismo na mente da protagonista.

Dançando no Escuro acontece em um mundo íntimo de Selma. Sua obsessão com o som, um lugar em sua cabeça onde o silêncio é quase insuportável, reflete bem a proibição e a limitação de sua imaginação, impossibilitando que tudo se transforme em música, seu real escape. Então, tirando o lustre dos musicais de Hollywood, o longa utiliza a realidade como ambiente. As músicas tem um aspecto melancólico que se arrasta pelo filme, sendo o contraste perfeito com a personagem principal.

Essa desconstrução do gênero durante toda a história oferece o oposto do que Selma ama e acredita em musicais, constantemente alegando que são realidades onde nada de ruim acontece. A vida da protagonista, porém, é o completo contraste e afronto à este otimismo. Como é apontado pelo advogado, a personagem apresenta uma realidade dura, vinda de um país difícil e até mesmo defendendo o comunismo. Porém são esse musicais hollywoodianos que ela ama que representam “o melhor da América”. Selma é esses musicais, envolta por tragédia e desespero em um mundo sem cor e sem esperança.

Durante uma das canções, Selma questiona “What’s left to see?“, “O que resta para ver?”, na realização que ela finalmente está cega. Este é um dos aspectos mais interessantes do filme que pode ser ao mesmo tempo um ode ao niilismo, onde não há nada no mundo que ela queira ver, já que sabe da dor que existe ao redor; e também pode ser analisada como o incansável otimismo, representado tão bem pela luz eterna da personagem que está dizendo que ela não precisa de mais nada para viver, já que ela já viu tudo que queria. 

Os atores bem estabelecidos e conhecidos são encontrados nesse filme deslocado de maneira a acentuar a sensação de desconforto, assim como todos os outros aspectos técnicos do filme. Sob iluminação dessaturada e amena, existe o gesto final de entregar os ósculos do filho para Selma em seus momentos finais, o último brilho de esperança que existe em seus esforço e seu sacrifício. Ensinando, então, como desconstruir um musical, Lars von Trier nos apresenta com uma música inacabada, um olhar oblíquo sobre a ações e consequencias e o terrível desespero de assistir os personagens simplesmente dançando no escuro.

 

Nossa nota é:

Gostaram do projeto Desafio Cinéfilo? Então continue acompanhando nossa colaboração com o blog Cinema Depois do Café e não perca as próximas indicações que serão analisadas por nossa equipe e por Vinicius Liessi. E não se esqueça, se quiser a análise de algum filme específico basta nos desafiar… Deixe seu desafio abaixo!

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Comentários

  • Irlan Silva

    Uma das melhores críticas que já li sobre o filme. Assisti pela primeira vez faz pouco tempo – apesar de já acompanhar a carreira da Björk e conhecer a história e a trilha-sonora do filme -, mas foi uma experiência inexplicável. Pena que o que rolava por trás das câmeras era tão ruim…