Crítica – Adeus, Lênin! (2003)
22 mar

Crítica – Adeus, Lênin! (2003)

Coluna, Desafio Cinéfilo

Julia Giarola

Continuando nossa nova parceria com o blog Cinema Depois do Café e com o projeto Desafio Cinéfilo, onde nossa equipe do Desencaixados troca indicações de filmes com Vinicius Liessi do blog, fazendo a crítica dos filmes indicados. A quarta indicação é o filme alemão de 2003, Adeus, Lênin!.

Filme: Adeus, Lênin!
Título original: Good Bye, Lenin!
Ano de lançamento: 2003
Duração: 1h 58min
Direção: Wolfgang Becker
Gênero: Comédia dramática
Nacionalidade: Alemanha

Sinopse: Em 1989, pouco antes da queda do muro de Berlim, a Sra. Kerner (Katrin Sab) passa mal, entra em coma e fica desacordada durante os dias que marcaram o triunfo do regime capitalista. Quando ela desperta, em meados de 1990, sua cidade, Berlim Oriental, está sensivelmente modificada. Seu filho Alexander (Daniel Brühl), temendo que a excitação causada pelas drásticas mudanças possa lhe prejudicar a saúde, decide esconder-lhe os acontecimentos. Enquanto a Sra. Kerner permanece acamada, Alex não tem muitos problemas, mas quando ela deseja assistir à televisão ele precisa contar com a ajuda de um amigo diretor de vídeos.

Apresentando um olhar íntimo sobre eventos históricos, Adeus, Lênin! é a mistura entre a comédia peculiar, desde seus personagens e suas interações, e a realidade obscura da queda do muro de Berlim. Em uma história aos olhos de Alexander, o filme toma uma direção interessante onde mostra como os acontecimentos e a transição afetaram as pessoas e as famílias, lentamente se entregando ao modelo capitalista. Porém, um pouco mais além de uma simples narrativa linear, o longa leva seu tempo estabelecendo a metáfora perfeita para que todos possam entender as dificuldade das mudanças, mesmo que sejam para melhor, se aproximando das diferentes etapas do luto.

Depois de ter um colapso ao ver o filho protestando contra o socialismo, Sra. Kerner fica em um coma durante a grande transição para o capitalismo. Agora tentando criar uma realidade diferente após sua recuperação, Alex teme que descobrir a verdade irá resultar em outro ataque cardíaco. Ele então faz de tudo para esconder os eventos que ocorreram durante seu “sono”, na tentativa de fazer a vida de sua mãe confortável, devido à culpa. Explorando os diferentes aspectos do luto, tanto da potencial perda de sua mãe e a então perda do mundo que conhecia, Adeus, Lênin! traça uma correlação entre a negação, negociação e, finalmente, a aceitação mostrando a coragem necessária de enfrentar uma nova realidade.

A mãe de Alex é a metáfora definitiva para esse aspecto do filme, representando os restos do socialismo que foram perdidos. A familiaridade de um mundo que lentamente deixa de existir é mostrada através da manipulação do protagonista a fim de proteger sua mãe. Sua busca por produtos que foram agora substituídos pelo mercado capitalistas é um exemplo perfeito. A interessante metáfora se estende ao seu então coma, mostrando os olhos fechados às mudanças. Enquanto ela “dormia”, o mundo ao seu redor estava mudando radicalmente, mas ela estava de olhos fechado para tudo, “ignorando” a transformação do seu país.

O significado do capitalismo para aqueles que viviam literalmente atrás de um muro é interessante, sendo que o filme não glorifica os aspectos gloriosos do modelo econômico. Em vez disso, Adeus, Lênin! enfatiza a ascensão do capitalismo como a liberdade de escolher os próprios líderes, de entrar em contato com novas culturas. Esse aspecto do filme é extremamente importante já que não romantiza a globalização como um simples acesso à franquias tais como Burger King. A dissolução do socialismo não é sobre isso e o longa soube mostrar este lado da radical e necessária mudança.

Ao final, um par de realidade é concretizado já que Sra. Kerner descobre toda a verdade, mas Alex não sabe disso. Enquanto ele lentamente cria sua transição para introduzir sua mãe neste novo mundo, sua mãe finge se inserir nesta realidade que o filho criou, na expectativa de não desapontá-lo. Após um tempo, então, Adeus, Lênin! encerra sua metáfora, não com uma grande cena de revelação, mas com as cinzas do socialismo sendo levadas pelos ventos em um gesto final da transição.

Nossa nota é:

Gostaram do projeto Desafio Cinéfilo? Então continue acompanhando nossa colaboração com o blog Cinema Depois do Café e não perca as próximas indicações que serão analisadas por nossa equipe e por Vinicius Liessi. E não se esqueça, se quiser a análise de algum filme específico basta nos desafiar… Deixe seu desafio abaixo!

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