Crítica – A Hora da Estrela (1985)
25 mar

Crítica – A Hora da Estrela (1985)

Coluna, Desafio Cinéfilo

Julia Giarola

Continuando nossa nova parceria com o blog Cinema Depois do Café e com o projeto Desafio Cinéfilo, onde nossa equipe do Desencaixados troca indicações de filmes com Vinicius Liessi do blog, fazendo a crítica dos filmes indicados. A quinta indicação é o clássico filme brasileiro de 1985, A Hora da Estrela.

Filme: A Hora da Estrela
Título original: A Hora da Estrela
Ano de lançamento: 1985
Duração: 1h 36min
Direção: Suzana Amaral
Gênero: Comédia dramática
Nacionalidade: Brasil

Sinopse: Macabéa (Marcélia Cartaxo) é uma imigrante nordestina, que vive em São Paulo. Ela trabalha como datilógrafa em uma pequena firma e vive em uma pensão miserável, onde divide o quarto com outras três mulheres. Macabéa não tem ambições, apesar de sentir desejo e querer ter um namorado. Um dia ela conhece Olímpico (José Dumont), um operário metalúrgico com quem inicia namoro. Só que Glória (Tamara Taxman), colega de trabalho de Macabéa, tem outros planos após se consultar com uma cartomante (Fernanda Montenegro).

Essa adaptação do romance homônimo de Clarice Lispectos mostra claramente como a escrita intimista da autora refletiu também no cinema brasileiro, explorando personagens em vez de enredos. Assim como a escrita de Clarice foi um marco para seu tempo, esse filme brasileiro de 1985, dirigido por Suzana Amaral também representou um passo a frente para a sétima arte aqui no Brasil. Explorando um visão simplista sobre as coisas, com um olhar íntimo dentro dos personagens, A Hora da Estrela dá prioridade ao interior, deixando a trama com uma importância secundária.

A ordem intimista que releva o estudo de personagem é clara neste filme, onde, dentro da rotina e do mundano, conseguimos enxergar a essência de uma pessoa. Com uma visão simplista sobre a inocência de Macabéa, A Hora da Estrela mostra os eventos com as pessoas que têm relações mais próximas entre si, uma auto-reflexão, não sendo totalmente abertos ao público, este que apenas observa e interpreta. As reações são deixadas por conta da personagem que caminha por uma trama de uma relevância secundária. Existe dentro do longa um elenco de personagens que apresentam desejos infantis, desejo de serem grandes, por exemplo. Ao contrário deles, a protagonista não possui muita ambição, simplesmente existindo.

Inadequada socialmente e insegura sobre sue lugar entre as pessoas, Macabéa perambula com inocência em um mundo desconhecido, um mundo que não está a seu favor. Ao decorrer da trama, porém, podemos assistir enquanto ela conhece a corrupção através das pessoas, experimentando novos comportamento, como as mentiras. O filme utiliza bom recursos como personagens ignorantes para ser progressista. Noções antiquadas sobre casamento e o lugar da mulher na sociedade representam bem este aspecto de A Hora da Estrela, que também usufrui muito bem dos diálogos para estabelecer isso.

Saindo do glamour que é assimilado ao cinema (sob visão de muitos), o longa, por exemplo, apresenta um novo tipo de nudez, onde funciona como o oposto da sexualização, apenas mostrando o dia-a-dia das mulheres que dividem quarto com Macabéa. Esse aspecto do cinema brasileiro pode ter sido perdido, mostrando mais uma vez como A Hora da Estrela estava além de seu tempo. A ótima atuação imersiva de Marcélia Cartaxo, assim como o resto do elenco ajudam o filme a se solidificar em um novo status, que vai além de sua adaptação.

A Hora da Estrela levanta uma questão interessante sobre o que significa a esperança, o que significa morrer antes de saber das coisas boas que irão acontecer. Esse aspecto de auto-conhecimento vem na forma da cartomante que representa os aspectos de Macabéa após a evolução diante os acontecimentos do filme. Sua epifania final, é a grande dúvida entre enfrentar a realidade ou viver na fantasia, apenas viver dentro da possibilidade de vida, as expectativas que tudo irá ficar bem. Na visão de Macabéa, seu passado foi trágico, seu presente está um desastre, mas seu futuro promete coisas maravilhosas. Isso diz muito sobre a personagem, diante uma versão de sua consciência, a cartomante. Nada disso pode ser representado melhor que a frase da própria autora, Clarice Lispector“Pois na hora da morte apessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes.”

Nossa nota é:

Gostaram do projeto Desafio Cinéfilo? Então continue acompanhando nossa colaboração com o blog Cinema Depois do Café e não perca as próximas indicações que serão analisadas por nossa equipe e por Vinicius Liessi. E não se esqueça, se quiser a análise de algum filme específico basta nos desafiar… Deixe seu desafio abaixo!

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