Batalhando a homofobia com a arte
19 set

Batalhando a homofobia com a arte

Coluna

Julia Giarola

Na última sexta, uma liminar de um juiz do Distrito Federal passou a permitir a realização de terapias de reversão sexual alegando garantia da ‘plena liberdade científica’, reconhecendo agora no Brasil a homossexualidade como uma doença. Com tantos avanços em todo o mundo, nós esquecemos de abrir os olhos para nossa casa, onde parece que a política está retrocedendo cada dia mais os direitos humanos do cidadãos. Hoje há uma notória diferença na luta contra o racismo, sexismo e homofobia, porém grande parte desses grupos ainda é obrigada a lidar com preconceitos diários seja esses a agressão física ou até mesmo ataques passivo-agressivo.

Diante de tanto ódio podemos nos virar para a arte que está constantemente tentando batalhar contra essa marginalização e é por isso que é a arte que vem conseguindo promover uma diferença, enquanto a política e a religião vêm nos falhando tanto. Séries e filmes com temáticas e protagonistas LGBT, estão aumentando seus públicos, deixando de ser restrito e passando a ser para todos. Isso importa muito para esses grupos, mas também para nossa sociedade que agora cresce com uma noção muito mais positiva sobre este tema delicado.

Parece, porém, que em meio de uma extensa crise política, a influência da arte não foi tão abrangente como imaginávamos, pelo menos não no Brasil. Após ser decretado como uma “uma violação dos direitos humanos e sem qualquer embasamento científico”, a “cura gay” entra em foco no país, agora que uma liminar de um juiz federal do DF passou a permitir, nessa sexta-feira, a realização de terapias de reversão sexual alegando garantia da ‘plena liberdade científica’.

O assunto já foi tratado nos cinema e um exemplo interessante é o filme Nunca Fui Santa, de 1999, que conta a história de Megan, o protótipo da líder de torcida americana: linda, popular, tira boas notas e sai com o capitão do time de futebol. Um dia, porém, seus pais resolvem salvá-la de um possível desvio sexual, uma vez que ela vegetariana, tem um pôster da Melissa Etheridge no quarto, abraça demais suas amigas e foge dos beijos do seu namorado. Os pais de Megan decidem enviá-la para o campo de homo-reabilitação “True Directions“, dirigido pelo ex-gay Mike, que possui um programa infalível de “cura”, em cinco passos. Este filme não apenas levanta questões que hoje estamos batalhando, mas também argumenta de maneira racional a essência de cada pessoa. Explorando a visão dos moldes homossexuais e heterossexuais, o filme mostra de maneira clara o quanto a manipulação da sociedade pode prejudicar a vida de uma pessoa, esta que sempre estará suscetível ao julgamento e aprovação alheia.

“As mulheres têm papéis. Depois que aprender isso, você vai parar de objetivá-las.”

Indo mais além, podemos ver projetos que também pretendem abordar o assunto, nos dando esperança que a arte será o caminho de nosso protesto. Dois filmes estão no processo de produção, um deles é com Chloë Grace Moretz que irá assumir o papel titular na adaptação cinematográfica da novela The Miseducation of Cameron Post, de Emily M. Danforth. O romance, criado em 1993, é centrado em torno de Cameron, uma menina adolescente que é forçada a ir a um campo de terapia de conversão gay depois de ser encontrada com uma colega de classe. Com base na conta da vida real de Zack Stark, o livro explora a tortura física e emocional alegada pelos sobreviventes da terapia medicamente denunciada. Com a crença horripilante do vice-presidente eleito dos EUAMike Pence na terapia de conversão e a com a nova liminar de nosso país isso parece oportuno para mostrar à todos esta triste realidade.

Outro exemplo é o projeto que será estrelado pelo cantor Troye Sivan, o próximo drama de terapia de conversão gay de Joel Edgerton, ao lado de Nicole Kidman e Russell Crowe. Boy Erased, que será lançado em 2018, explorará a vida de um jovem que é filho de um professor batista. Depois que ele é preso a seus pais conservadores, ele é forçado a participar de um programa de terapia de conversão gay. “Este filme vai ser tão importante e tenho a honra de fazer parte dele”, escreveu Sivan no Twitter. O filme é baseado em uma memorial de 2016 aclamada pela crítica pelo escritor americano Garrard Conley. Conley tinha 19 anos quando seus pais lhe disseram que ele poderia ir a terapia de conversão gay ou ser repudiado. O livro de memórias conta o prejuízo que ele sofreu no programa Love in Action, e também inclui contos de outros participantes. Conley disse que acredita que a adaptação do filme de seu livro tratará os sobreviventes da terapia de conversão com o respeito que merecem. “Eu trabalhei com muitas pessoas para garantir que minha história e a história de outras pessoas que sofreram através da terapia de conversão não seriam estereotipadas ou destruídas”, ele escreveu em seu site. “Todos os rascunhos foram enviados para mim na primeira rodada e, embora o rascunho possa mudar, acredito que isso só vai mudar para melhor. O time está trabalhando duro para conseguir essa história”.

Estes tipos de projetos prometem trazer uma luz ao assunto, impedindo que esses tipos de decretos como o que foi passado no Brasil não prejudique a visão da sociedade a respeito dos grupos LGBTs e que estas mesmas pessoas consigam enxergar a homossexualidade além da perversão, além da doença. Então, ao envés disso, vamos todos entrar nessa luta contra a “doença” chamada Homofobia.

Dica extra de filme

Eu Sou Michael

Este filme é a incrível história da vida de Michael Glatze, um ativista juvenil gay de alto perfil que criou uma controvérsia nacional quando ele afirmou não ser mais gay e se tornou um pastor cristão. O longa segue Michael de sua vida em San Francisco com seu namorado Bennett, onde ele persegue ativismo político, uma carreira de jornalista na revista XY, consciência social e exploração sexual, aos seus dias de auto descoberta pessoal. Após um susto traumático, Michael está atormentado pela dúvida e paranóia, e começa um despertar religioso. Michael renuncia ao “estilo de vida gay” e rejeita seus amigos.

Eu Sou Michael já está disponível na Netflix Brasil.

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