A misoginia em The Big Bang Theory
03 set

A misoginia em The Big Bang Theory

Coluna

Julia Giarola

The Big Bang Theory é uma das séries em andamento mais populares da atualidade, conseguindo consolidar uma enorme base de fãs. Frequentemente abreviada como “TBBT“, a série de situação comédia norte-americana foi criada por Chuck Lorre e Bill Prady, e estreou no canal CBS em 22 de setembro de 2007. Agora já em sua 11ª temporada, a sitcom ganhou novos níveis de sucesso acompanhando Penny, uma atriz/garçonete que se muda para o apartamento do outro lado do corredor de dois físicos brilhantes, mas socialmente inadequados, mostrando os hábitos geeks e o intelecto dos rapazes e de seus amigos entrando em contraste com as habilidades sociais e senso comum de Penny para efeito cômico. Porém, por trás do sucesso e das risadas existe a triste verdade que a série representa uma misoginia que ao longo dos anos foi considerada “perdoável” devido a natureza frágil e “inofensiva” dos protagonistas socialmente inábeis.

Através dos anos os “nerds” vem sendo representados de uma maneira inofensiva e vitimizada pela sociedade. Dentro da própria cultura que foi estabelecida por filmes e séries, nós enxergamos esses personagens como oprimidos e explorados. Porém essa concepção cegou a audiência para julgar as ações de tais personalidades como nada mais que “inofensivo” ou até mesmo tolerável. Em filmes dos anos 80 podemos ver isso claramente como em A Vingança dos Nerds (1984) ou Gatinhas e Gatões (1984), onde os grupos classificados como “geeks” ou “nerds” se engajam em uma cruzada sexista que não é vista como misógina devido sua natureza oprimida, enquanto os antagonistas são crucificados ao fazer parte de ações similares. Isso tudo se resume à representação.

O conceito de The Big Bang Theory é baseado nesta ideia no qual apresenta uma desculpa para os personagens agirem como agem. A audiência não está necessariamente ciente na natureza sexista dos quatro protagonistas da série, pois esta é disfarçada no frágil status social dos personagens. Desta maneira nós optamos por nos sentirmos mal e compreensivos em relação às suas ações, ignorando a óbvia objetificação das mulheres com quem interagem. Isso acontece caracterizando personagens masculinos cuja versão “geeky” da masculinidade é enquadrada como comicamente patética e ainda cativante. Este status de “cara legal”, então, deixa-os fora do gancho para uma ampla gama de comportamentos assustadores, direcionados e sexistas. Graças a essa imagem que temos em nossa cabeça desconsideramos o comportamento inadequado dos próprios oprimidos.

Apesar de não se envolver na crescente representação deturpada de mulheres na TV e no cinema, TBBT apresenta personagens machistas sem expor essas características como socialmente inaceitáveis como deveria. A série representa bem as interações femininas, os relacionamentos entre mulheres, mas peca ao representar a tolerância quanto ao comportamento dos protagonistas masculinos e isso é um problema. Eles constantemente perseguem, espiam, mentem e tentam manipular as mulheres em suas vidas para efeito cômico. Esse tipo de representação tem algumas implicações assustadoras, já que no mundo real, a misoginia e o assédio sexual não são inofensivos, como a série deixa parecer.

“O problema não sou é eu, é o seu gênero.” – Sheldon Cooper

Apoiando-se fortemente em uma combinação de humor irônico e um truque popular entre escritores chamado lampshading (um truque para lidar com qualquer elemento da história que ameaça a suspensão de descrença voluntária do público), a série mostra que está ciente do problema, porém ainda insiste em explorá-lo afim de arrancar risadas fáceis e baratas. Muitas piadas miram a objetificação das mulheres afirmando o óbvio, entre outros aspectos do sexismo, chamando a atenção para isso e simplesmente seguindo em frente. O lampshading irônico proporciona uma maneira sarcástica para eles se safarem com estas posições, minimizando o sexismo por trás das declarações dos personagens, tornando-as bem-humoradas.

Porém há uma diferença entre explorar conscientemente um sério problema social e suavizá-lo. Reconhecer o fanatismo criado não é o mesmo que criticá-lo, o que torna difícil para pessoas que ainda estão lutando contra isso, enquanto uma série tão popular quanto The Big Bang Theory continua minimizando uma mensagem subjetiva que deve ser abolida. Essa mensagem que o tipo de humor da série promove é que, na maioria das vezes, sexismo é inofensivo quando vindo de personagens que quebram o molde do arquétipo comum de Hollywood, a representação da misoginia que estamos programados a reconhecer. Mas isso não é verdade.

Os quatro protagonista são reais representantes dos tipos de condutas machistas que as mulheres têm que enfrentar diariamente, eles que frequentemente engajam em um comportamento desrespeitoso diante as personagens femininas, deixando-as desconfortáveis ​​com observações sexistas ou até mesmo com comentários incrivelmente ofensivos. Howard é um pervertido que constantemente se refere as mulheres de maneira objetificada; Leonard é o facilitador do grupo que embarca um comportamento manipulador em seus relacionamentos; Rajesh, não sabendo como lidar com mulheres é simplesmente inapropriado; E finalmente, Sheldon é o misógino casual, sempre implicando a superioridade masculina.

“Eu quis dizer que TODAS as mulheres são escrevas de seus impulsos biológicos.” – Sheldon Cooper

Nós podemos ir um pouco mais além comparando a abordagem de TBBT com outra popular sitcom norte-americana: Friends. Esta série dos anos 90 utilizou as características agravantes dos protagonista de maneira a dar relevância aos problemas sociais que abrangem. Ao representar Ross Geller como um homem sexista e homofóbico, Friends criou esta oportunidade dando espaço para o personagem crescer. Quando ele recusa em ir ao casamento de sua ex-mulher, Carol, e sua parceira, Susan, devido sua natureza preconceituosa, a série aproveitou a oportunidade para evoluir o personagem ao terminar o episódio com Ross não apenas comparecendo à cerimônia, mas ainda aceitando a união das duas personagens, superando sua intolerância pessoal e se tornando um homem melhor. O mesmo acontece no episódio da 9ª temporada “Aquele com a babá homem“, mostrando Ross apresentar uma posição extremamente sexista sobre a profissão de Sandy, um homem que Rachel contrata para ser babá de Emma. No final do episódio, Ross entende a origem de seu comportamento e mais uma vez evolui como personagem.

The Big Bang Theory, porém, não se esforça para utilizar estas características dos personagens em contexto mais complexo da série, as utilizando apenas para a comédia. A misoginia da série é tolerada, e não deveria ser. As pessoas são ensinadas a se sentir pior por um homem misógino que é repreendido por sua ação sexista do que uma mulher que se sente desconfortável por esta ação e em parte este é um problema da sociedade, mas também da cultura pop que continua colocando esta noção em nossa cabeça. A diferença entre as situações retratadas na série e as situações do dia-a-dia é a faixa de risada inserida no fundo para que todos possam ouvir e achar graça!

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