A importância do vazio – Escrita em Breaking Bad
08 fev

A importância do vazio – Escrita em Breaking Bad

Coluna

Julia Giarola

A escrita é uma das grandes paixões de toda a equipe do Desencaixados, em qualquer forma que ela se apresente. Afim de celebrar essa segunda “Era de Ouro” da televisão, estamos desenvolvendo uma série de três colunas onde iremos analisar, separadamente, o poder da escrita no que considero as três melhores séries de todos os tempos começando pelo terceiro lugar: Breaking Bad.

Criada e produzida por Vince Gilligan, a série acompanha a vida do químico Walter White, um homem brilhante frustrado em dar aulas para adolescentes do ensino médio enquanto lida com um filho sofrendo de paralisia cerebral, uma esposa grávida e dívidas intermináveis. White, então, é diagnosticado com um câncer no pulmão, o que o leva a sofrer um colapso emocional e abraçar uma vida de crimes, produzindo metanfetamina com seu ex-aluno, Jesse Pinkman para pagar suas dívidas hospitalares e dar uma boa vida aos seus filhos.

Com uma premissa já extremamente interessante, Breaking Bad não perde seu ritmo girando em torno das escolhas de seu protagonista, as quais o levam a uma intensa, dolorosa e inevitável transformação. O resultado disso é o que na verdade pode ser considerada uma das melhores histórias de origem já contadas, seguindo a trajetória de um homem aparentemente comum enquanto ele se transforma em um dos maiores “vilões” do universo a seu redor. É uma série, antes de tudo, sobre transformação e o processo dessa transformação explorando principalmente causa e efeito. Nós somos introduzidos ao protagonista, logo depois seus obstáculos e então vemos como ele lida com esses. Nesse processo, enxergamos sua essência, começamos a presenciar suas reações diante os acontecimentos em sua vida e logo suas ações, passando de um personagem passivo para o personagem responsável por mover a trama adiante, e isso tudo apenas no primeiro episódio.

Conceito já estabelecido, tudo se resume à escrita. Agora com o apoio de uma premissa interessante e um piloto envolvente, Breaking Bad segue uma nova fórmula onde tudo é drama, extraindo até a última gota de cada conflito, obstáculo e tensão que apresenta à audiência. Correndo atrás desse drama, Vince Gilligan conduz a série para uma nova direção, como ele mesmo já disse: “Para mim, a série é sobre processo, em grande parte (…) Drama está nos pequenos momentos”. Com esse aspecto, Gilligan e seu time de roteiristas mostra ao público algo que eles não estão acostumados em ver e isso é a consequência. Logo após o primeiro episódio, Walter White e Jessie Pinkman têm que lidar com os corpos mortos, resultado dos acontecimentos do primeiro episódio. Enquanto muitas séries e filmes iriam apenas ignorar essa etapa, Breaking Bad trás de volta este espaço que seria pulado, o envolvendo como parte essencial da trama e da evolução dos personagens.

A série conta história visualmente, cada pedaço da tela, até mesmo os vazios, contam uma parte dessa história trazendo todos os elementos para ajudar na extração de significado. Um dos momentos que serve como um ótimo exemplo é durante o episódio Ozymadias, um episódio que em si explora muito bem este aspecto. Porém, em uma cena específica durante o confrontamento entre Walter White e Skyler, é mostrado um enquadramento localizado na cozinha onde, em cima da mesa, há uma faca e um telefone. A imagem funciona em muitos níveis, mostrando à audiência o tanto que os dois objetos são perigosos naquela situação: por um lado Skyler pode pegar o telefone e entregar Walter para a polícia; por outro ela pode utilizar a faca para atacá-lo. Simples assim, sem nenhuma palavra, somos desafiados a perceber e interpretar isso, mesmo que não seja conscientemente.

A consistência permanece durante todas as cinco temporadas da série e Vince Gilligan encontra uma maneira de refletir premissa e estrutura, mostrando aquilo que normalmente não seria mostrado em outras histórias que exploram os mesmos obstáculos. Breaking Bad, porém, preenche essa lacuna e dá atenção à tudo envolvendo a trama em vez de apenas deixar de fora o que muitos iriam interpretar como falta de ação, falta de conflito, explorando então a importância do vazio.

Continue acompanhando nosso site para descobrir qual será a próxima série analisada em nossas colunas. Em sua opinião quais são as três melhores séries de todos os tempos? Deixe seu comentário abaixo.

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