A importância do silêncio – Escrita em Arquivo X
19 mar

A importância do silêncio – Escrita em Arquivo X

Coluna

Julia Giarola

Continuando com nossa homenagem à segunda “Era de Ouro” da televisão, estamos voltando com nossa série de colunas onde analisamos, separadamente, o poder da escrita no que considero as três melhores séries de todos os tempos. Na matéria anterior abordamos a importância do vazio na série Breaking Bad, que ocupa o terceiro lugar de nossa lista. Seguindo em frente com nosso objetivo, está na hora de explorarmos os aspectos da escrita do segundo lugar: Arquivo X.

A clássica série dramática de ficção científica criada por Chris Carter teve seu início nos anos 90, gerando nove temporadas, dois filmes e ainda duas minisséries de revival. Acompanhando a jornada de Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson), os dois agentes especiais do FBI investigam os Arquivos X, casos marginalizados e não resolvidos envolvendo fenômenos paranormais. Mulder acredita na existência de alienígenas e fenômenos paranormais, enquanto Scully, médica e cética, é designada para fazer análises científicas sobre a credibilidade do trabalho de Mulder. No início da série, ambos os agentes se tornam peões em uma conspiração entranhada no governo, passando a confiar apenas um no outro e em poucas pessoas selecionadas. Desenvolvendo uma dinâmica interessante, a série logo apoia seu teor dramático nesta parceria que utiliza muito do silêncio para se comunicar.

Um produto de seu tempo, explorando um aspecto climático da política norte-americana da época, Arquivo X, ainda nos dias atuais, consegue ser atemporal, introduzindo a original desconfiança no governo. Seguindo os passos da paranoia pós Guerra Fria, a série que deu o ponta pé inicial na televisão serializada apoiou sua mitologia em conspirações entranhadas em figuras de poder do governo; sem rostos e sem nomes esta trama principal que se expande entre as temporadas já explora o aspecto da importância do que não é falado ou mostrado. O maior exemplo desta conquista é a presença autoritária do principal antagonista da série que só tem sua primeira fala no final da primeira temporada no clássico episódio Tooms. O mistério em torno da figura conhecida ao decorrer das temporadas por vários pseudônimos como Cigarette Smoking Man, ajuda a criar a política do silêncio que é tão explorada na mitologia geral da história.

As histórias movidas pelas jornadas emocionais dos protagonista é a base da série. Apresentar ao público dos anos 90 personagens complexos dentro de um contexto fantástico como fenômenos paranormais, foi uma decisão ousada por parte dos escritores, porém a escolha que definiu o status de clássico. Quase como uma antologia compartilhando apenas um mesmo elenco de personagens chaves, Arquivo X era visto sob as diversas interpretações dos diferentes roteiristas. Explorando aspectos íntimos de Fox Mulder e Dana Scully, as histórias contadas caracterizavam e descaracterizavam os dois ao mesmo tempo. Essas desconstruções, porém, sobre diferentes perspectivas foi o que concretizou as características pessoais de cada um, se eternizando então como personalidades complexas que vão muito além de simples hábitos e manias.

Outro exemplo claro deste feito é o sétimo episódio da 11ª temporadaRm9sbg93zxjz (ou Followers em base 64). Experimentando, principalmente, com o conceito da inteligência artificial, a história vai muito mais além explorando, então, a comunicação e conexão humana com um episódio praticamente silencioso. Apresentando apenas algumas falas de diálogos, Arquivo X volta a apoiar na dinâmica entre os personagens que conseguem se comunicar apenas com olhares. Este aspecto sempre foi muito bem explorado nas temporadas originais, deixando por conta da audiência para interpretar os momentos de silêncio.

A natureza experimental da série de ficção científica se provou além de seu tempo e um pilar para os programas de hoje. Apoiando-se no conceito do “narrador duvidoso”, os espectadores são sempre deixados interpretando as ações ambíguas dos personagens. Apostando na química entre os atores principais, Arquivo X prova que nem tudo precisa ser mostrado para existir. Muito do que não era dito também fazia parte das histórias, criando um estilo sutil e sofisticado de privacidade dentro do próprio universo da série. A ambiguidade dos relacionamentos explorava a falta de comunicação em muitos sentidos, mas também contava com os simples olhares que representavam tão bem a intimidade e proximidade da parceria entre Fox Mulder e Dana Scully.

Capitalizando os medos comuns como algo debaixo da cama no aclamado episódio da quarta temporada, Home, e a extrema paranoia das conspirações na mitologia geral, Arquivo X criou um novo gênero, onde conta histórias de uma maneira íntima e pessoal. Se escondendo nas sombras da fotografia escura dos anos 90 e dizendo apenas o necessário, a série refletia de maneira interessante a importância do silêncio, onde este era, de certa forma, um personagem por si mesmo. Os personagens não precisavam dizer nada, pois estava tudo ali, exposto no silêncio.

Continue acompanhando nosso site para descobrir qual será a próxima série analisada em nossas colunas. Em sua opinião quais são as três melhores séries de todos os tempos? Deixe seu comentário abaixo.

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