A importância do fracasso – Escrita em Friends
05 maio

A importância do fracasso – Escrita em Friends

Coluna

Julia Giarola

Nos últimos meses nossa equipe do Desencaixados vem promovendo uma homenagem à segunda “Era de Ouro” da televisão, lançando uma série de colunas onde analisamos, separadamente, o poder da escrita no que considero as três melhores séries de todos os tempos. Na matéria anterior abordamos a importância do silêncio na série ocupante do segundo lugar, Arquivo X. Agora está na hora de analisar os aspectos da escrita na série que conquistou o primeiro lugar: Friends.

A aclamada sitcom americana criada por David Crane e Marta Kauffman teve seu início em 1994 e durante suas dez temporadas conquistou audiência recordista e um status de clássico. Com um total de 236 episódios, a série que girava em torno de um grupo de seis amigos que vivia na cidade de Nova York teve seu episódio final assistido por aproximadamente 52,5 milhões de telespectadores estadunidenses, tornando-se a quarta conclusão de uma série mais assistido da história da televisão. Friends ainda é transmitida em dezenas de países e suas reprises continuam com boas audiências o que levanta a pergunta: em uma era na qual muitas séries amadas estão ganhando seu retorno, por que Friends ainda não ganhou um revival?

Esse ainda é um dos maiores pedidos entre os fãs de Friends, que aguardam ansiosos qualquer reunião entre os seis amigos. É interessante iniciar a análise da escrita da série com esta pergunta em mente, apontando um aspecto importante sobre o sucesso e a qualidade da sitcom enquanto estava no ar. Em várias entrevistas, os criadores Marta KauffmanDavid Crane já revelaram a descrição oficial utilizada para caracterizar o tema principal da série, um tema este relevante na consistência das temporadas durante os dez anos. Confira a descrição:

“É sobre sexo, amor, relacionamento, carreiras … uma época em sua vida quando tudo é possível, o que é realmente emocionante e realmente assustador. É sobre a busca por amor e compromisso e segurança … e um medo de amor e compromisso e segurança. E é sobre amizade, porque quando você é jovem e solteiro na cidade, seus amigos são sua família.”

Com uma temática estabelecida, Friends explorou muito bem todos os alto e baixos de ser jovem e viver sobre uma instabilidade que pode se alternar entre positivo e negativo, uma época onde tudo pode acontecer. A batalha de finalmente viver independente, lutando para se manter e encontrar amor, tudo isso sendo balanceado no dia-a-dia de pessoas que enfrentam tudo graças ao apoio de amigos íntimos, amigos que estão passando pela mesma situação. Essa ênfase criada na época específica da vida desses seis personagens é importante para entender um dos aspectos mais poderosos que corria pelos episódios da série.

Um episódio extremamente subestimado que representa este elemento perfeitamente é “Aquele com Cinco Bifes e um Berinjela“. Este quinto episódio da segunda temporada explora temas muito sofisticados para uma simples sitcom, tratando de assuntos como as diferentes situações financeiras dentro do grupo de amigos, assim como o orgulho em recusar ajuda. Na cena final, durante uma discussão entre os seis personagens, Mônica recebe uma ligação que mais tarde ela revela ter sido seu chefe a demitindo. Naquele momento a discussão pára e todos se juntam para consolá-la. Reunidos em um momento de fracasso, os seis amigos entendem o problema maior, um problema no qual se relacionam e se identificam, assim como todo o restante da audiência.

Estes pequenos momentos de maturidade e compaixão são entrelaçados nas situações hilárias que a série disponibiliza, mostrando a instabilidade da vida adulta enquanto esta ainda está sendo estabelecida. Rachel, Mônica, Phoebe, Ross, Joey e Chandler estão todos nesse momento na vida deles, enfrentando os obstáculos afim de crescerem e fazerem parte do mundo adulto. Friends chega ao seu fim com os seis personagens encontrando esta estabilidade, separando o fracasso do simples dia-a-dia, concluindo então a temática principal da série.

Procurando sempre explorar situações dentro do conceito criado por Kauffman e Crane, os roteirista de Friends conseguiram entregar a série perfeita, que se manteve consistente em relação à comédia e qualidade durante todos os episódios. Se a sitcom retornasse para um possível revival, o progresso temático feito durante todas as dez temporadas teria que ser desfeito, já que os personagens seriam obrigados a regressar ao estado de “fracasso” para que as novas história funcionassem. Este tema, porém, já foi concluído e é por isso que novos episódios não seriam uma boa ideia.

A perda de emprego, o término de um relacionamento, tudo isso representa aspectos importantes em nossas vidas, marcando momentos que nossos caminhos mudam de direção. São esses momentos que definem quem seremos mais tarde, como iremos agir diante o fracasso, apoiando em nada menos que as pessoas ao nosso redor. É esta época que a série tenta representar, mostrando que a vida é feita de altos e baixos e são esses fracassos que nos trazem mais próximos; são nesses fracassos que encontramos nossos amigos, nossa família.

Gostaram dessa nossa série de colunas? Em sua opinião quais são as três melhores séries de todos os tempos? Deixe seu comentário abaixo.

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